Avenida Angelica

A alma das ruas

Foto Hildegard Rosenthal, Av. Angélica 1940

Acho saudável trocar os nomes de ditadores que batizam nossas ruas e praças por nomes mais sintonizados com a democracia vigente no país. Os nomes das ruas não indicam somente as pessoas, as coisas e os acontecimentos que uma comunidade valoriza; eles também revelam a alma do lugar.

Getúlio Vargas é um exemplo vivo disso. No Rio, ele é a principal artéria do centro, chamada solenemente Avenida Presidente Vargas. Mas em São Paulo – cidade conhecida pelo seu amor às próprias tradições e pelo ódio a líderes populares – Getúlio é nome de uma pequena rua num bairro de periferia, o Jardim Rosinha. E sem o cargo de presidente.

Vargas foi banido do centro, mas está em excelente companhia no Jardim Rosinha. O bairro tem alma musical: a rua Noel Rosa passa pela rua Dalva de Oliveira, cruza com a Vinicius de Morais e desemboca na Cazuza. A alma do Rosinha também é de esquerda. Lá você pode morar na rua Carlos Marighella, trabalhar na rua Betinho, namorar na Olga Benário e passear pela Xambioá. Aos domingos, pode ir à missa na praça Santo Dias.

As ruas mostram que São Paulo não gosta muito de literatura, talvez porque os maiores escritores nacionais não sejam paulistas. O capixaba Rubem Braga sequer transita pela sede do município: é uma viela de um quarteirão só, em Barueri. Cecilia Meirelles, carioca, foi confinada ao Jardim Japão, onde liga a Avenida das Gueixas à Avenida das Cerejeiras. O mineiro Carlos Drummond de Andrade – que no Rio ganhou até estátua na praia – também foi varrido para a periferia paulistana. Mas é outro que se deu bem: virou uma ruazinha na Vila Nova União, entre a Raul Seixas e a Adoniran Barbosa. Pertinho da travessa do Rio Encantado.

Machado de Assis talvez seja o maior injustiçado em São Paulo. A via com seu nome é uma ruela insignificante, estreita, com apenas sete quarteirões, na Vila Mariana. Porém, não muito longe dali, três ruas tem muito a ver com Machado. Uma é a Zacarias de Góis, político conservador e ministro da Monarquia, vítima habitual do mordaz Machado quando jovem. Talvez para calar a pena de Machadinho, Zacarias nomeou-o para o serviço público, dando-lhe o sustento material e a posição social que lhe permitiram dedicar-se às letras. Machado não foi ingrato, e na velhice traçou elogioso perfil de Zacarias.

A Zacarias de Góis é cortada pela rua Joaquim Nabuco. O velho Nabuco também era político do Império, e no senado sentava-se atrás de Zacarias, com quem confabulava o tempo todo. Seu filho Joaquim Nabuco, grande diplomata e abolicionista, foi amigo íntimo e conselheiro de Machado de Assis por toda a vida.

Quem também cruza a Zacarias de Góis é a rua Otávio Tarquínio de Sousa. Otávio foi marido de Lúcia Miguel Pereira – autora da primeira grande biografia e estudo crítico da obra de Machado, publicada 28 anos depois da morte do escritor. Lúcia e Otávio morreram em 1959, num acidente aéreo. Alceu Amoroso Lima e Carlos Lacerda escreveram crônicas lamentando a perda do casal.

Chegando em Lacerda caímos de novo em Getúlio, e voltamos ao começo desta jornada, perdidos no labirinto de vidas que dão nome às ruas de outro labirinto: o labirinto das almas, com suas esquinas e becos das paixões e ilusões. Quase sempre, encruzilhadas. Quase sempre, sem saída.

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