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A comédia do inferno

No meio do caminho desta vida – talvez por ler muito jornal, navegar pela internet e ouvir conversas no cabeleireiro – achei-me a errar pela selva escura da dúvida e da confusão. Meu discernimento sumiu por completo. Já não distinguia o certo do errado, uma descortesia de uma ofensa, um deslizezinho de um pecado mortal capaz de levar-me ao inferno.

Dei buscas no Google, tentando achar algo para iluminar minha mente, mas só consegui ficar mais perdido. Resolvi, então, consultar um livro que é best seller há 700 anos, mas que eu nunca tinha lido: “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Deve ter algo que preste, disse comigo. E de fato tinha, angélico leitor. Não sei se você vai curtir, mas é meu dever compartilhar o que encontrei, para preveni-lo do risco de ir parar nas garras de Lúcifer.

Dante mostra que o inferno é uma espiral de 9 Círculos, com vários tipos de martírios, conforme os pecados de cada um. Os círculos vão se afunilando nas profundezas, em direção ao centro do inferno. Até o Círculo 6 as broncas são leves: luxúria e adultério, gula, avareza, ira e heresia. A partir do Círculo 7, a coisa começa a esquentar com os suplícios de quem cometeu violências. Primeiro, contra outrem, ou seja, os assassinos, os tiranos, os assaltantes. Depois, contra si mesmos, os suicidas. Por fim, os que praticaram violências contra a natureza (homossexuais, ou sodomitas). Dante é simpático com os sodomitas, entre os quais inclui altas figuras da cultura, como Bruneto Latino, seu querido mestre. Se ele vivesse hoje, creio que seria um defensor da causa gay.

O Círculo 8, o penúltimo, ocupa-se da fraude e da corrupção – mais graves do que assassinatos e consideradas, naquela época, as peçonhas mais venenosas que se espalham pelo mundo, sem nada que consiga detê-las. Entre os primeiros fraudulentos estão os bajuladores, imersos em fezes, gemendo humildes e servis. Em seguida, com os rostos virados para as costas, caminham os adivinhos e embusteiros. Abaixo são punidos os traficantes de cargos e influências, funcionários trapaceiros, mergulhados num poço de betume fervente. Depois deles, vestidos com pesadas capas de chumbo por dentro e ouro por fora, desfilam em prantos os hipócritas. Mais abaixo vê-se longas labaredas, e dentro de cada uma delas, ocultos, os ladrões públicos, altos funcionários fraudulentos. Aqueles que semearam ódio e discórdia entre pessoas e povos – pecado gravíssimo – ficam ainda mais abaixo, sofrendo golpes de espada, as vísceras à mostra. E no final do Círculo 8 apodrecem os falsários, incluindo os impostores, cobertos de lepra e gangrena da cabeça aos pés.

Nessa altura, eu me perguntava, quem padece no Círculo 9, o miolo do inferno, regido pelo Príncipe das Trevas em pessoa? Não há fogo ali: as almas sofrem mergulhadas no gelo, tiritando eternamente com as faces pálidas e vermelhas de vergonha, e os olhos cegos por lágrimas cristalizadas. São os traidores, gente que atraiçoou a família, os amigos, a pátria, ou cometeu o mais hediondo de todos os pecados: trair seus líderes e benfeitores, como Judas e Brutus.

Imagino que os círculos infernais devem estar superlotados atualmente, e possuem novas divisões para acomodar pecadores modernos, como o policial que explode a cabeça de uma criança, ou o sujeito que invade um centro de reabilitação e estupra uma adolescente cega, de 16 anos. Fechei a Comédia e suspirei aliviado. Bajulação, hipocrisia, trapaças, ódio, corrupção e traições eram de fato pecados. E gravíssimos. Meu discernimento estava de volta. Abri o jornal, feliz, mas logo na primeira notícia uma nova dúvida assaltou-me: e se já morri e aquilo que penso ser realidade é apenas um dos círculos do Inferno, onde pago minhas penas?

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