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Acredite se quiser

Acho que o ano deveria ter apenas nove meses. Além de mais compatível com o ciclo de gestação humana, ficaríamos livres de novembro, dezembro e janeiro – meses em que nada acontece, e quando acontece é desgraça natural. O último mês do ano seria outubro, quando ocorrem as coisas que realmente importam para o mundo.

A humanidade não seria o que é, se em outubro não tivessem nascido Gandhi, Lennon, Colombo, Oscar Wilde, Nietzsche, Picasso, Drummond e Vinícius de Moraes. Sem falar de minha filha e minha sogra. Outros grandes perderam a vida neste mês, como Chopin, Guevara, Janis e Maria Antonieta. Ah, dirá você, todo mês nasce e morre gente importante! Concordo, mas note como o elenco de outubro tem um brilho mais intenso, mais radical que os demais. Perfeito Fortuna sintetizou esse ímpeto numa frase definitiva: “outubro ou nada!”

Outubro é revolucionário. É o mês das revoluções chinesa e soviética, sem falar da revolução de 1930 – que enterrou nossa República Velha. Nesse mês, o homem voou pela primeira vez, rompeu a barreira do som, entrou em órbita da Terra e vestiu o primeiro smoking. De quebra, Colombo descobriu a América. Não sei em que ano faremos contato com extraterrestres, ou descobriremos vida em outro planeta. Mas será em outubro.

Eu sei o que você está pensando. Sim, agosto também é um mês do caralho. Sim, a bomba atômica teve grande impacto, os japoneses que o digam. Claro, Nixon renunciou em agosto. Jânio também, é verdade. Em agosto Getúlio se matou e JK se estrepou. Mês de cachorro louco, mangalô três vezes. Estamos juntos, é um mesinho forte, reconheço. Mas nunca produziu eventos da magnitude de outubro, capazes de mudar o mundo – para o bem ou para o mal. Não, não vou falar do crack da bolsa em 1929. Nem da coroação de dom Pedro I. Para liquidar o assunto, sugiro apenas que você pesquise em que mês foi lançado o Ford T.

Por esses motivos, sempre desconfio – a priori – da importância de uma coisa quando ela não acontece em outubro. Esse oba-oba em torno da prisão dos mensaleiros, por exemplo. Não consigo acreditar que isso signifique o fim da corrupção, da impunidade e da injustiça no Brasil. Nem o começo de um novo tempo com mais igualdade, respeito, solidariedade e tolerância. Tampouco a construção de uma república forte, onde as instituições funcionem de forma ética e competente.

As enxurradas de ódio entre o “bem” e o “mal”, o comportamento midiático do judiciário, a conduta justiceira da mídia, o oportunismo dos golpistas de plantão, tudo me faz duvidar dessa campanha da moralidade. Não acredito que se o mal contaminou o bem, então, automaticamente, o bem tenha contaminado o mal. Sei que há muita gente genuinamente indignada, gente honesta que não tolera mais abusos. Mas na condução do movimento, na orquestração da revolta, sinto um cheiro fétido e ouço o rosnar de lobos sob o balido alegre das ovelhas.

Além desses sinais de alerta, existe também um ceticismo atávico que habita o fundo do meu ser, e me leva a concordar com uma frase que está circulando na internet: vamos acabar na barbárie – se tivermos sorte. Mas o que realmente me faz achar que tudo continuará como dantes, se não pior, no quartel de abrantes – é que isso está acontecendo em novembro. Se estivéssemos em outubro, juro que eu acreditaria. Acho.

1 responder
  1. Vitor
    Vitor says:

    Hahahaha… Sempre gostei de Outubro. Desde criança, quando você tem um feriado com presentes para você e as outras crianças, você já vai aprendendo a gostar desse mês! Na adolescência, nele está a semana do saco-cheio, folga escolar! Aliás, também é mês de Nossa Senhora, Mãe de Deus. Mês dos escorpianos com os maiores ferrões. (Observação: Nossa Senhora está colocada no signo de Libra, com a balança na mão). Muitas coisas se resolvem em Outubro… Talvez seja astrólogico – aproveitando esse tema. O mês se inicia em Libra, medindo, e termina em Escorpião com o golpe mortal… Devaneie à vontade. É o meu mês preferido, já declarado anteriormente a amigos para caso suspeite de influência do texto. Quando Outubro acaba e vejo que ainda preciso de mais Outubro, lembro da música e ouço a Elis Regina cantar dentro de mim, vinda da memória musical: “Outros Outubros virão, outras manhãs cheias de sol e calor…”

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