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Algumas coisas

DSC00381No Interior, percebo coisas que não percebo na cidade grande. A moda, por exemplo. Não sabia que oncinha é o hit do momento, até uma jovem felina passar ao meu lado. Achei normal aquela pelagem naquele corpo deslizante, mas logo vi uma idosa bem velhinha, também oncificada. Coincidência, pensei. Que nada. Bastou afinar o olho para ver que eu estava numa verdadeira selva. Calças, bolsas, camisetas, óculos, tudo felinizado. Donas-de-casa gatas, periguetes, titias, gatas magras, gordas, gatas negras, brancas, amarelas. Até lençóis e toalhas assumem as cores da pintada. Finalmente, após anos de emancipação, as mulheres põem as garras prá fora e mostram o que sempre foram: predadoras. Nos anos 80, eram de oncinha somente calcinhas profissionais, ou de uso na alcova em ocasiões festivas. Naquela época, uma só mulher-onça (Juma, da novela Pantanal) enfeitiçava sozinha o Brasil inteiro. Hoje, qualquer onça pode virar mulher e desfilar insinuante pelas veredas das nossas fantasias. Os homens somos o que sempre fomos: presas fáceis. Porém felizes.

Outra coisa que não se percebe mais na cidade grande, mas ainda é visível em cidades menores: a vida rural. Numa curva de esquina, surge um caubói. Uma mulher vem ao portão com dinheiro amassado, e compra queijo fresco saído de um fusca poeirento. Cavalos pastam em gramas baldias. Sente-se cheiro de fumo de corda aqui e acolá. Bichos rurais se urbanizaram. Nos fins de tarde, o tradicional balé aéreo dos pardais e andorinhas foi reforçado por papagaios e mesmo juritis – a mais arisca das aves brasileiras. Em cidades grandes também se encontra animais silvestres. Porém, no caso das megalópoles, a bicharada foi engolida pela urbanização, e perdeu o rumo do mato. A cidade foi em direção aos bichos. No Interior, a cana-de-açúcar e as pastagens forçaram aves rurais a procurar novas fontes de comida e pouso. Os bichos foram em direção à cidade. Talvez por isso carreguem certo ar tristonho e assustadiço, como mendigos ou pedintes famintos. Um ar de não sou daqui. Um ar retirante.

E existem coisas que eram raras em cidades menores, há 30 anos. Por exemplo, uma aula para cidadãos comuns – sobre arte pré-histórica. O professor mostra o poder das imagens sobre os homens, desde as cavernas até o Santo Antonio na bolsa da solteirona. O mesmo impulso, a mesma expressão em vários lugares e épocas. A ponte entre o material e o espiritual. A busca da beleza, sempre, mesmo nas coisas utilitárias. O professor gesticula, une o erudito ao popular, magnetiza a platéia. Cita filósofos, e termina com a leitura de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa: a busca de outra forma de ser e estar no mundo, de sentir e de expressar, do novo, do inexplicável, do mistério. Ver sentido onde outros só vêem loucura. A arte, enfim. Saí da aula lembrando antigas escolhas, e pensei: entre o Interior e a Capital, existe uma terceira opção. O que me falta é coragem de embarcar, como faltou ao narrador do conto.

2 respostas
    • Cezar Bergantini
      Cezar Bergantini says:

      Hahaha, grande comentário, Vitor! Nota-se que brota do fundo d’alma. Vc me lembrou de uma frase do Perfeito Fortuna: “outubro ou nada!”. Vou acrescentar na crônica.
      Põe esse seu comentário lá no face tb.
      saudações outubrinas!

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