Rato

Alma de rato

Já tive vontade de sair pra comprar cigarros e não voltar. No bolso, dinheiro para pegar um ônibus ou um trem, ficar uns dias num hotel barato, almoçar, talvez jantar. E só. Na nova cidade, arrumaria trabalho, faria amizades, encontraria um novo amor. Levaria uma nova vida, sem cometer erros de iniciante. Construiria uma nova carreira, uma nova casa, uma nova família, quem sabe novos filhos. Ficaria sócio de outro clube, frequentaria outra padaria, torceria para outro time. Escolheria outra cor favorita, outro prato predileto. Usaria roupas diferentes, gostaria de pagode, acreditaria em duendes. Olharia para outra vizinha. Faria promessas a outro santo. Em pouco tempo, estaria com vontade de sair novamente para comprar cigarros. Mesmo que tivesse parado de fumar.

Também já imaginei se aquele poeminha besta falando de amor ou de sofrimento, que rabisquei quando tinha treze anos, em vez de parar no meio de um caderno velho lançado ao lixo, parasse nas mãos de um grande editor que visse naquelas mal traçadas a linha promissora de um carretel literário, e com isso alterasse meu futuro, transformando minha vida insípida, inodora e incolor, minha vida de rato, de funcionário anônimo, de monotonia, de submissão, de inveja, de enfado, de contas a pagar, de miudezas em geral, numa vida glamurosa de autor best seller, cheia de viagens a lugares paradisíacos, noites de autógrafos, entrevistas na TV, almoços de negócios, jantares com estrelas, sessões de fotos, feiras literárias, reuniões com agentes, com editores, com advogados, uma vida de sonhos, mas na realidade sujeita a problemas de tradução, acusações de plágio, escândalos na imprensa, chantagens, uma vida de invejas, de críticos desonestos, descumprimentos de contratos, de prazos, de palavras, uma avalanche de compromissos se avolumando, cobrindo-me a cabeça, transformando meus dias em pedras, minhas noites em pesadelos, uma presa fácil numa caçada cheia de trapaças, dando-me vontade de gritar, de explodir, de virar pó, de voltar a ser nada, ter uma vida insípida, inodora, incolor, uma vida de funcionário anônimo, monótona, feita de pequenezas e nada mais.

Sempre que estou de saco cheio da vida, penso também numa historinha que li não sei onde: um rato, cansado de viver fugindo, pediu a Deus que o transformasse num gato. Deus estava de bom humor, e transformou-o num deslizante felino. Imediatamente, surgiu um bando de cachorros em seu encalço. Desesperado, ele miou a Deus para transformá-lo num cachorro, pois vida de gato não era vida de gente. Deus atendeu-o, mas o novo cachorro logo se viu encurralado por uma alcatéia de lobos famintos. Nova súplica, outra transformação, e ele agora viu-se na pele de um lobo, perseguido por um bando de caçadores implacáveis. Aflito, uivou a Deus para que o fizesse homem, mas Deus o fez novamente rato, dizendo: “não importa em quê Eu o transforme, você terá sempre a alma de um rato”.

Hoje não fumo mais. Mas de vez em quando ainda sinto aquela vontade de sair pra comprar cigarros. Quando isso acontece, respiro fundo e pergunto: quem está querendo sair, eu ou minha alma de rato? Até agora, a resposta é sempre a mesma.

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