Rei_Leão por do sol

Amigo é pra essas coisas

Acabou a Copa, acabou a água, acabou o salário, acabaram as férias, acabou-se o que era doce. Acabaram até os assuntos dignos de nota. Percorro os grandes cronistas, e nada. Um deles comenta um novo livro sobre a cidade de Santos. Outro ridiculariza o surgimento de mais um cacoete de linguagem, e um terceiro volta pela enésima vez ao golpe de 64.

Bem que Paulo Mendes Campos nos alertava que tudo – até o amor – acaba. E o que ainda não acabou, um dia acabará. A Terra acabará. O Sol acabará. A Via Láctea inteira acabará, engolida por nossa vizinha Andrômeda. Gasto minutos preciosos da minha vida – que também acabará – olhando os astrônomos discutirem o nome da nova galáxia que irá surgir e, assim como eles, não consigo escolher: Lacdrômeda ou Androláctea?

Talvez a dúvida nunca se acabe. O medo também é inacabável. E os mistérios. Acho que só. Até a vontade de viver acaba. O único consolo é saber que quando algo acaba, algo ocupa seu lugar. É o chamado ciclo sem fim, daquela música do filme “O rei leão”. Tudo se transforma. A mocinha bonita se transformará na idosa respeitável, este inverno se transformará em primavera, aquela flor se transformará numa fruta, e da sua semente brotará uma árvore.

Essas mudanças são fáceis de ver, de imaginar, de aceitar. Mas há coisas que não sabemos em quê vão se transformar. Por exemplo, que espécie de bicho virá depois do homo sapiens? Vamos evoluir no rumo da civilização ou da barbárie? A vida tecnológica dominará a vida natural?

Tudo isso lhe parece muito papo cabeça? Pode ser que seja, mas as respostas a essas questões dependem de coisas bem simples, como o nosso jeito de consumir, de interagir, de fazer as coisinhas do dia-a-dia. Um amigo meu diz que precisamos ser menos vorazes, porque não vai ter mundo prá todo mundo. Tem gente querendo voltar à vida tribal, alegando ser esse o único tipo de comunidade onde as relações humanas deram certo: não havia desemprego, nem crianças abandonadas, nem velhos morrendo à míngua.

Nas seitas norte-americanas amish toda nova tecnologia é rejeitada, até que se mostre não prejudicial às relações familiares e sociais. O automóvel é um perigo porque leva as pessoas para longe. O telefone é ruim porque elimina o contato direto nas conversas. A televisão destrói as visitas sociais, as rodas de convívio. Precavidos, os amish só adotam inovações depois de estabelecerem regras que limitem seus danos à saúde social.

Recentemente a biologia e a medicina descobriram que os seres mais resilientes – capazes de suportar melhor as pauladas da vida – são aqueles com mais relações no meio ambiente. Ou seja, a casa pode cair, e um dia cairá. A festa pode acabar, e um dia acabará. Quem tem amigos vai sobreviver, e saberá recomeçar o ciclo sem fim. Que não sabemos para quê existe, mas está aí. E nunca se acaba. Como canções. E epidemias.

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