Pasta de dente

Até que a morte nos separe

Odeio quando vou comprar um produto que uso há anos, e o balconista me diz “não tem, não fabrica mais”. Como assim? O produto é bom, eu uso, meus amigos usam, milhares de pessoas usam. “É, mas agora tem uma nova versão no mercado”. Odeio o mercado. Odeio novas versões. Quero meu desodorante sem perfume, bom e barato, que me deixa como sou, e não parecido com um galã de shopping. Quero minha pasta de dentes normal, que limpa e refresca minha boca, sem fazer meus dentes brilharem como fileira de diamantes.

Sou um sujeito de hábitos simples, porém firmes. Jamais peço outra pizza que não seja marguerita ou portuguesa. E sempre na mesma pizzaria. Mudar prá quê? Não vejo sentido em comer a mesma coisa em outro lugar, correndo o risco de pagar mais por algo pior. Sim, tem gente que não resiste a uma novidade e vive trocando as coisas. Trocam até de mulher, seduzidos por modelos mais novos. Estou com minha mulher há mais de 30 anos, a gente se dá bem na cama, na mesa, até no banho; já enfrentamos a tristeza e a alegria, a saúde e a doença, a crise hídrica e o imposto de renda. Nunca me ocorreu que uma jovenzinha pudesse substituí-la, por mais bela e recatada que fosse.

Com roupas, é a mesma coisa. Uso o mesmo tipo de cueca há décadas. Já caí na conversa de vendedoras e tentei mudar de marca e modelo, mas nunca deu certo. Ora aperta embaixo, ora em cima, às vezes tanto em cima quanto embaixo. Sou apegado às coisas, mas não chego ao grau de fidelidade daquele americano que se casou com o smartphone, de aliança e tudo.  Aliás, desconfio dessas fidelidades. Duvido que ele não abandonará o pobre aparelhinho assim que aparecer uma versão mais moderna no mercado. Odeio o mercado e seus fiéis infiéis.

Isso não quer dizer que eu não goste de coisas novas. Gosto, mas de coisas verdadeiramente novas, não de novidades. Adoro quando emerge algo novo que desmorona o velho. Pode ser um novo ritmo musical, uma nova onda de cinema, um romance que descobre novas terras no oceano da literatura. Pode ser um movimento, como as mulheres nas ruas, ou esses bandos de moleques que invadem escolas e chacoalham governos corruptos e ineficientes. Pode ser até o meu Palmeiras, que renasce como um time novo, brilhando isolado no topo do campeonato.

Também gosto de mudanças, apesar de não conseguir mudar meu próprio comportamento, tantas vezes ridículo e mesquinho. Recentemente, mudei minha forma de dirigir, mas só porque não aguentava mais pagar multas. Gosto de mudar de ares. Gosto de mudar a roupa de cama quando termina o inverno e começa a primavera. Gosto de mudanças irreversíveis, aquelas que destroem pontes, que não deixam pedra sobre pedra. Gosto principalmente de mudanças que – como diz a letra da canção – transformam as velhas formas do viver.

Gosto, enfim, das mudanças que me fazem mudar. Acho ótimo, desde que não mexam no meu desodorante e na minha pasta de dentes – porque destes, nem a morte me separa.

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