Entries by Cezar Bergantini

Hoje levantei cedo

Hoje levantei cedo, mas não aconteceu nada. Fui até a praia imaginando encontrar você, mas não havia você. Não havia nem praia. Amanhã vou levantar mais cedo. Quem sabe dou sorte. Quem sabe encontro uma flor entre as pedras do caminho. Dizem que é primavera agora. Dizem que as coisas vão melhorar, que é preciso […]

Conde, pombas e urubus

Atrasado para uma reunião, passei por minha mulher e ela sentada à mesa disparou: as pombas são burras. Parei com a mão na maçaneta e perguntei por que. Ora, disse ela, porque deixam que um único e atrevido sabiá lhes roube a comida. A comida é delas, elas que acharam. Aí um sabiá mergulha num […]

Só, mas bem acompanhado

Quando solteiro, eu morava sozinho e achava que solidão era estar desacompanhado. Vivia numa época pré-internet e pré-celular, quase pré-histórica, onde as pessoas conversavam somente por telefone fixo.  Mas o meu passava os dias mudo. Não conhecia ninguém na cidade grande, minha família morava no interior e as ligações interurbanas custavam uma fortuna. Até que […]

Em outro lugar, no mesmo lugar

Talvez por causa da intensa luz desse inverno tropical, talvez porque agora me sobre tempo para coisas inúteis, talvez porque a fisioterapeuta me recomendasse cinco minutos diários de contemplação; talvez por tudo isso, o fato é que comecei a fotografar o pôr-do-sol. Todos os dias, sempre no mesmo horário, e do mesmo ângulo. Antes que […]

Até que a morte nos separe

Odeio quando vou comprar um produto que uso há anos, e o balconista me diz “não tem, não fabrica mais”. Como assim? O produto é bom, eu uso, meus amigos usam, milhares de pessoas usam. “É, mas agora tem uma nova versão no mercado”. Odeio o mercado. Odeio novas versões. Quero meu desodorante sem perfume, […]

O beijo de Lamourette

Ontem adormeci na poltrona, assistindo ao noticiário político, e comecei a sonhar com sessões de tribunais, quedas de ministros, ordens de prisão, delatores, traições e tumultos. Quando vi, estava numa rua estranha, no meio de uma passeata estranha. Todos vestiam roupas esquisitas e berravam palavras de ordem em francês. Percebi que estava em 1792, no […]

Vergonhas

Tive um amigo que nunca usava meias furadas. Ele dizia que morreria de vergonha se fosse parar num hospital, inconsciente, e os enfermeiros, ao descalçá-lo, descobrissem os furos. Lembro dele toda vez que estico uma meia e vejo um dedão ou calcanhar à mostra. Por sorte, nunca fui parar inconsciente num hospital, mas já passei […]

Renascimento à brasileira

Desocupado leitor, dizem que depois dos cinquenta, se você acorda sem nenhuma dor, é porque está morto. Hoje acordei assim, mas ao invés de morto, me senti vivo como há muito não sentia. O único incômodo foi uma sensação de estar na época errada, em alguma década do século passado. Imagine Don Alonso Quijano despertando […]

Os ovos de João de Barros

Eu tinha uns catorze anos quando conheci João. Um dia, ele disse vai lá em casa prá gente papear e tomar café. Fui, num sábado à tarde. Casa pequena, pobre, com quintal grande e cheio de plantas. Morava com a mãe, o pai, um monte de irmãos, gatos, cachorros e galinhas. João foi lá dentro, […]

Braga, Hemingway e eu

Hoje me sinto um Rubem Braga. Depois de muito tempo, resolvi praticar aquilo que eu e o cronista de Itapemirim mais temos em comum. Claro que o velho Rubem era muito melhor na coisa, além de ser bem mais talentoso para o ofício, reconheço. Suas proezas são famosas e podem ser lidas com deleite em […]