Baby madona

Baby I love you

Seu nome? Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Nasceu em Niterói, numa família de classe média alta. Aprendeu a cantar e tocar violão desde cedo. Aos 17, fugiu de casa e foi parar em Salvador, na Bahia, de carona. Dormiu as primeiras noites debaixo de uma ponte, mas logo se enturmou com um grupo de músicos porraloucas. Ela se apaixonou pelos dedos e pelas coxas do guitarrista. O guitarrista se apaixonou pela boca e pelas coxas dela. Transaram, namoraram, casaram, tudo velozmente.

O grupo estava de saída para o Sul, ela veio junto. Tentaram a sorte em São Paulo, depois foram para o Rio, viver em comunidade num sítio. Disseram que ela podia cantar, mas tinha que mudar de nome, Bernadete Dinorah era o fim da picada. Qual nome? Alguém fez a sugestão cantarolando uma música do filme Meteorango Kid – O herói intergaláctico, um cult nacional de 1969 dirigido por André Luiz Oliveira, que dizia: “Baby Consuelo, sim. Por que não?”.

Se você é menor de 30, talvez a conheça como Baby do Brasil, mas para a minha geração, ela será sempre Baby Consuelo, um diamante cristalino de lindas pernas, que cortou o vidro da música popular brasileira ora tinindo, ora trincando, ora telúrico, ora cósmico. Daquele sítio em Jacarepaguá saiu “Acabou Chorare”, segundo LP dos Novos Baianos, que a revista Rolling Stone Brasil considera “o maior álbum de música brasileira de todos os tempos”.

Em plena ditadura militar, Baby invadiu o Brasil sem pedir licença. Foi a primeira mulher a subir num trio elétrico, e a primeira grávida a mostrar o barrigão num show. Não foi pioneira em usar pelos nas axilas, mas foi a primeira que tingiu-os – laranja num lado, azul no outro. Produzia impactos e canções sem parar. E filhos também, nessa ordem: Sarah Sheeva, Krishna Baby, Nãnashara, Pedro Baby, Kriptus Baby e Zabelê.

Baby e o marido Pepeu Gomes foram os primeiros a deixar os Novos Baianos e seguir carreiras solo. Em 1980, dez anos depois do sítio em Jacarepaguá, o Brasil parou para ouvi-la cantar “Menino do Rio” no Fantástico, uma nova música de Caetano Veloso, feita especialmente para ela. Seus discos venderam mais de 6 milhões de cópias, e deixaram em nossa memória canções recorrentes, como “Todo dia era dia de indio”, que lembramos a cada 19 de abril.

Baby nos mostrou que existem mais de mil maneiras de amar e de cantar. Na linha “o que vier eu traço”, ela misturava tudo. Fundiu Janis Joplin com Elza Soares, jazz com samba, bossa nova com rock’n’roll. Nunca fez distinção entre Jimi Hendrix e Waldir Azevedo. Gravou músicas infantis, arrasou no Festival de Montreux, exibiu-se com gala no Blue Note Jazz Club, de Nova Iorque. Depois seguiu os passos de sua filha mais velha, Sara Sheeva, e virou evangélica. Fundou a Igreja Intercelular Sara Nossa Terra (releia esse nome), passou a cantar gospel e tornou-se “popstora”.

Em 2012 fez 60 anos e comemorou voltando aos palcos ao lado do filho Pedro Baby. Também retornou à folia, e despertou a ira de alguns evangélicos ao dizer que Deus gosta do carnaval porque é uma festa alegre. Atualmente ninguém sabe explicar se Baby continua ou não evangélica. Na verdade, pouco importa. Sua conversão à religiosidade também era algo inexplicável, porque – sabemos todos – Baby sempre foi uma mulher sem pecado. E deliciosamente sem juízo.

Foto ilustração de Mario Luiz Thompson

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