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Balzac S/A

DSCN2524Ao ler Balzac, de Johannes Willms, ocorreu-me que se vivesse hoje o escritor francês seria rico. Podre de rico. Talvez não um top ten da Forbes. Mas provavelmente estaria entre os 100 maiores. Por um motivo simples: sua inacreditável capacidade de gerar riqueza midiática. Não porque produzia e fazia produzir, com disposição napoleônica e em escala industrial, romances, contos, folhetins, crônicas, teatro, crítica, projetos, bate-bocas, casos amorosos, anedotas, notícias, caricaturas, processos judiciais e – de forma mais industrial ainda – dívidas. Mas principalmente porque ele criou e recriou inúmeros produtos e formatos da indústria editorial, jornalística, gráfica e publicitária.
Balzac inventou o romance moderno. São devedores dele: Proust, Joyce, Rosa, Borges, entre outros. Sua linguagem está viva até hoje. Segundo pesquisa de Franklin Jorge, “lavagem de dinheiro” e “laranja” são gírias balzaquianíssimas. “Tia”, para homossexual de meia-idade, também. Ele escrevia para o plebeu, para o aristocrata, para o militar. Também era lido pela burguesia, embora não fosse seu target (Honoré era monarquista e antirrevolucionário). Chegou a ter uma boa agente literária – Louise de Brugnol – mas a pobre labutava também como governanta, mãe, enfermeira e amante. Nessa ordem. Balzac a chamava de “mulher-cão”. Se tivesse agentes profissionais, Balzac teria vendido mais que Paulo Coelho e J.K. Rowling juntos.
Depois, inventou o folhetim – o cavalo a vapor que bombou as primeiras engrenagens jornalísticas, depois a máquina do rádio e agora a indústria da TV. Ele mesmo não conseguiu adaptar-se à narrativa fracionada, nem criar os ganchos que o formato exige. Ironicamente, quem mais lucrou à época foi um inimigo jurado de Balzac, Eugène Sue, um dos primeiros mestres do “gancho”. Depois vieram Glória Magadan, Dias Gomes, Aguinaldo Silva…
Empresário gráfico, Balzac criou o bolsilivro. Infelizmente, um fracasso de vendas, pois as limitações gráficas tornavam o formato quase ilegível. Com essa invenção, ele amargou sua primeira falência. Atualmente, teria enchido os bolsos com Brigitte Monfort, FBI, Colt, Sabrina e similares.
Balzac inventou o político de massas midiático quando nem havia política de massas. Tentou eleger-se com base na sua popularidade, mas a maioria dos seus fãs não eram eleitores. Antes de 1848, só votava na França quem pagasse a fortuna de 200 francos anuais de impostos. Num regime político de massas, entretanto, Honoré nocautearia Schwarzenegger. Daria um banho em Cicciolina.
Era um marqueteiro nato. Viveu de merchandising quando a propaganda ainda engatinhava. Seu alfaiate, Buisson, recebeu cinco inserções na Comédia Humana. Em troca, crédito ilimitado para o caríssimo fashion balzaquiano. Despesas com festins em restaurantes da moda? Receitas de merchandising. Os fictícios Lucien de Rubempré e Henry de Marsay, eram habitués das mesmas casas que seu criador. Só o Rocher de Canale, um dos templos gastronômicos da época, é mencionado 39 vezes na Comédia.
Balzac inventou também o marketing promocional. Fez de si próprio um personagem famosíssimo, mas não conseguiu administrá-lo. Volta e meia, misturava o homem e o personagem, a realidade e a aparência. E dava com os burros n’água. Um apoio psicológico e uma consultoria de imagem competentes o teriam transformado num produto valiosíssimo. Talvez superior a Dali, se tivesse Gala. Ou Caetano, se tivesse Paulinha.
Por fim, Balzac inventou os direitos autorais. Ele escreveu a base da lei francesa de 1854 e também redigiu um código literário que regulamentava o direito dos autores perante editores – transformado em lei 12 anos após sua morte. Honoré deve ter chacoalhado seus endividados ossos na cova. Quando vivo, nunca viu a cor (só o cheiro, uma vez) de uma comissão. Hoje em dia, os direitos autorais giram bilhões de dólares ao redor do mundo.
Proust dizia que a grande arte leva uma geração para ser aceita. Balzac sacou isso antes, ao perceber que só ficaria rico quando não precisasse mais. Em abril de 1842, ele escreveu: “é preciso transcorrer meio século até que uma coisa grande seja, enfim, compreendida”. Proust – que não dependia da sua pena para viver – escrevia em busca do tempo perdido. Para Balzac, tempo era money. Ele escrevia em busca da grande tacada. Pena que não viveu para ver as tacadas milionárias que se tornaram suas obras, suas invenções, suas lutas, sua vida. Daria para construir uma holding: Balzac S/A.

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