Rolando Lero 2

Calça furada

Divertem-me as reações de indignação quando algum estrangeiro fala mal do jeito brasileiro de ser. Às vezes nem é falar mal, mas apenas uma informação útil ao pobre turista que ousa nos visitar. Coisas como sermos um povo brincalhão, informal, que gosta de por a mão e beijar no rosto, que não respeita horários e usa muito a palavra amanhã. Por que nós podemos falar o que quisermos sobre nós mesmos, mas quando alguém de fora se atreve a dizer como nos vê, ficamos injuriados?

Para falar a verdade, acho até que nesta copa os estrangeiros estão pegando leve. Bem mais pesado pegou Ina von Binzer, uma alemãzinha de 22 anos, contratada em 1880 para educar crianças brasileiras bem nascidas. Em suas cartas – reunidas num saboroso livrinho chamado “Os meus romanos”, editado pela Paz e Terra, com prefácio de Paulo Duarte e apresentação de Antonio Callado – ela nota que “os brasileiros dão ótimos advogados.

Dão a vida por falar, mesmo quando é para não dizer nada. Com a eloquência que esbanjam num único discurso, poder-se-iam compor facilmente outros dez. Tudo é exterior, tudo gesticulação e meia cultura.

O fraseado pomposo, a eloquência enfática já são por si próprios falsos e teatrais; mas se você tirar a prova real, se indagar sobre qualquer assunto, não são capazes de fornecer a informação desejada”. Quando leio isso, lembro de Rolando Lero, figura brasileiríssima criada pelo genial Rogério Cardoso. E entendo porque tipos como Joaquim Barbosa e Arnaldo Jabor fazem sucesso entre nós.

Frequentadora dos salões das famílias abastadas, a professorinha espantava-se ao ver que “há pessoas na alta direção do Partido Republicano que não conhecem a história nem a constituição do país nem muito menos as das outras nações. Há outros, que se dizem partidários do sistema filosófico de Comte, mas não compreendem os seus mais elementares ensinamentos. Alguns dão opinião sobre línguas estrangeiras, mas não sabem explicar nenhuma regra da sua própria. Não se encontra profundidade em parte alguma.” Até hoje – excetuando talvez Lima Barreto – não vi ninguém desmascarar de forma tão simples e contundente a ignorância da nossa classe dominante, dos políticos e dos pseudo-intelectuais que infestam o cenário nacional. O lema “ordem e progresso” parece ter sido a única coisa que gravaram de Comte – e posteriormente desvirtuaram completamente seu sentido. Perderam o bonde da história, mas não perdem a pose e a empáfia. Ina von Binzer os chamava de “simplórios”.

Acho que devemos ser gratos à Fifa, à mídia internacional e outras entidades estrangeiras. Seus textos contém meras orientações turísticas. Tratam de algumas diferenças culturais e comportamentais entre nós e o mundo civilizado. Mencionam, claro, nossa realidade social violenta, mas não se aprofundam nas causas. Ainda bem. Deus, definitivamente, é brasileiro. Podemos continuar fingindo que somos bonzinhos, bonitinhos e perfeitos, neste vasto salão global. E acreditando (com nossa “ingenuidade quase comovente”, já dizia a alemãzinha Ina) que ninguém está vendo nossas calças furadas. E curtas.

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