Hoje levantei cedo

Hoje levantei cedo, mas não aconteceu nada. Fui até a praia imaginando encontrar você, mas não havia você. Não havia nem praia. Amanhã vou levantar mais cedo. Quem sabe dou sorte. Quem sabe encontro uma flor entre as pedras do caminho. Dizem que é primavera agora. Dizem que as coisas vão melhorar, que é preciso ter paciência, ter confiança, mas escuto essas coisas desde jovem, desde quando dormia, desde quando assobiava, desde quando você me abraçava.

Preciso consertar o relógio da parede. Tenho vergonha que alguma visita perceba as horas paradas. Não importa que eu nunca receba visitas. Tenho vergonha mesmo assim. O espelho do banheiro também está quebrado. Também não importa que eu nunca me olhe no espelho. Tenho vergonha. Não sei consertar relógios, nem espelhos. E não tenho dinheiro para pagar quem conserte. Não tenho nada, só tenho tempo, tempo de sobra. E vergonha.

De dia as coisas são mais fáceis, ouço um martelo batendo, um rádio ligado, o som do caminhão vendendo cândida. O duro são as noites. Vagueio pelos telejornais mecanicamente. Clic: descobriram estranhos sinais na superfície de Júpiter. Clic: fizeram um novo experimento agrícola em Botucatu. Clic: alguém inventou um aplicativo que monitora o crescimento das unhas do pé. De madrugada assisto a um concurso culinário, depois uma reportagem sobre a cirurgia de costela da Shakira. Bebo muita coca-cola – choca e sem gelo. A geladeira quebrou.

Antigamente tudo funcionava. A geladeira vivia cheia, os banhos eram quentes, a torneira não pingava. Antigamente havia shows, cinema, teatro. Você gostava de tirar os sapatos na chuva, gostava de amigos nos bares, gostava de rir alto, gostava de beijar no elevador. Você nunca foi recatada. As noites passavam rápido, os lençóis amanheciam manchados. De manhã havia cheiro de café. Tinha sempre um gato miando na cozinha e um cachorro latindo no quintal.

Antigamente o ano tinha quatro estações, e você gostava de todas. Acreditávamos na previsão do tempo, fazíamos planos de ano-novo, discutíamos o preço do feijão. Sim, antigamente havia feijão. Você amava o Chico, eu adorava o Caetano. Você declamava Drummond, eu João Cabral. Você queria salvar a floresta, eu os gatos vadios. Você preferia molho branco, eu molho vermelho.

Antigamente as pessoas iam a comícios, faziam aniversário, punham roupa nova, davam presentes. Havia casamentos, separações e reconciliações. Havia nascimentos e batizados. Antigamente havia almoços de domingo, visitas aos doentes, compras de Natal, despedidas na rodoviária, bulício de crianças na porta da escola. Havia loucos nas praças e travestis nas esquinas. Havia passeatas de estudantes. Antigamente havia pecado e perdão.

Antigamente os ponteiros dos relógios andavam. Antigamente eu dormia. Às vezes até sonhava. Agora, depois do último gole de coca-cola morna e choca, desligo a TV e fico deitado esperando o dia clarear. Mas sempre levanto cedo. Pode ser que aconteça alguma coisa. É preciso ter confiança, dizem.

Conde, pombas e urubus

Atrasado para uma reunião, passei por minha mulher e ela sentada à mesa disparou: as pombas são burras. Parei com a mão na maçaneta e perguntei por que. Ora, disse ela, porque deixam que um único e atrevido sabiá lhes roube a comida. A comida é delas, elas que acharam. Aí um sabiá mergulha num golpe e pousa no meio do bando, ergue a comida no bico e bate as asas enquanto elas nem percebem quem as roubou – ficam girando e arrulhando, feito bobas. Eu ia dizer-lhe que essa era uma lei natural, um sabiá ligeiro, sabidamente, leva vantagem diante de pomposas pombas. Mas não falei nada, apenas dei o fora. Depois, fiquei pensando.

E pensei mais antes de escrever, porque passarinho é lance de cronista profissional, o que não é o meu caso, um reles escriba não remunerado. O socialista Rubem Braga, por exemplo, usou e abusou de passarinhos. Quando queria dar uma estocada mais funda, atacava de passarinho. Uma vez fulminou o mais poderoso industrial da época – o conde Matarazzo – com um mísero passarinho. O passarinho bicara o peito do conde para furtar-lhe uma medalhinha presa na lapela. Braga tomou o partido da ave, porque um passarinho, argumentou, canta e voa, enquanto um conde industrial não sabe gorjear nem voar. O industrial gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, das máquinas de aço e de carne que trabalham para ele. O industrial gorjeia com o dinheiro que entra e sai dos seus cofres. Um passarinho não é industrial, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho – escreveu ele.

Muitos acreditam que Braga queria ser um passarinho, mas sua vida nunca foi orientada para isso. Ele queria ser um urubu, porque é maior e mais triste. E tem o bico mais forte. Um urubu, explicou, teria arrancado o coração do conde em vez de tirar-lhe apenas a medalhinha. Braga era um sujeito doce, mas politicamente era um black bloc. No texto contra o magnata, ele diz que a vida é estar num bonde, falando ao motorneiro. É essencial falar ao motorneiro, afirma. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então, ele orienta didaticamente, o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

O que isso tem a ver com o sabiá e a burrice das pombas? Ora, tudo. No reino humano, pequenos sabiás também não fazem mal a ninguém. Quando crescem, param de roubar trocados da avó, nutella do supermercado, toca-fitas usados. O problema é quando o sabiazinho se torna um sabiazão que quer roubar tudo e mandar em todo mundo, daqueles que acham que as pombas nunca enxergam nada e sempre deixam que lhes tirem a comida, a casa, a saúde, a coragem, o riso, e por fim, até a liberdade de arrulhar.

Quando isso acontece, é sinal que o sabiá ladrão ocupou o lugar do motorneiro e se faz de surdo. Às pombas só resta tomar-lhe o bonde das mãos e comê-lo picadinho com farofa. Mas as pombas nada fazem a não ser ficar girando com os olhos pro chão, dando cabeçadas e arrulhando indignadas. Assim como Rubem Braga, também prefiro ser uma ave, em vez de conde. Menos pomba. Pomba não. As pombas definitivamente são burras. E o bico não presta pra nada.

Só, mas bem acompanhado

Quando solteiro, eu morava sozinho e achava que solidão era estar desacompanhado. Vivia numa época pré-internet e pré-celular, quase pré-histórica, onde as pessoas conversavam somente por telefone fixo.  Mas o meu passava os dias mudo. Não conhecia ninguém na cidade grande, minha família morava no interior e as ligações interurbanas custavam uma fortuna. Até que um dia, comprei um filtro Europa. Em pouco tempo minha solidão acabou: comecei a receber ligações de umas moças simpáticas, querendo fazer a manutenção do aparelho. No começo eu explicava que meu filtro era novo e ainda não precisava desses cuidados. Cheguei a ficar irritado, dizia que aquilo era um assédio, mas quando vi, estava gostando do papo cotidiano. Aguardava diariamente as ligações, ansioso e carente, feito aquela rosa solitária que o Pequeno Príncipe cativou. Ao toque do telefone meu coração disparava: a moça do filtro Europa! Ficava um tempão ouvindo-a, sempre amável, sempre preocupada com minha saúde, me alertando sobre o perigo das algas verdes, me explicando como eu poderia viver cem anos se fizesse a manutenção regular, que custava quase tanto o meu precioso filtro. Às vezes, só para alimentar a relação, eu concordava em agendar uma visita – sem compromisso – e ganhava outro par de horas jogando conversa fora e tomando café com o técnico.

Hoje tenho um filtro de barro, que me dá água fresca com sabor de natureza, e eu mesmo faço a manutenção. Hoje também sei que posso sentir solidão mesmo rodeado de pessoas, ou atendendo vinte telefonemas por dia. A sensação de isolamento aumenta ainda mais quando entro na internet.  Sinto-me um estranho nesses grupos de whatsapp que só tem comentários óbvios e piadas velhas que circulam há anos na rede. Raramente posto alguma coisa, o máximo que solto de vez em quando é um rsrs amarelo. Jamais cheguei a um kkkk.

Outro problema é a febre de comemorações, todo dia inventam uma data diferente pra celebrar. A última foi a dos avós. Tenho cabelos brancos, já sou tio-avô e nunca tinha ouvido falar desse dia. É o comércio em desespero, raspando o fundo do tacho. Duvido que os pobres velhinhos tenham conseguido subir as vendas, porque quando os netos tem idade e dinheiro, geralmente não tem mais avós.

E não é só o comércio que parece desesperado.  As pessoas também lutam para não ficar solitárias, num mundo onde se conversa cada vez menos e não há mais convívio social. Este é um comentário óbvio, eu sei. Mas necessário. Acho que na época em que matavam bichos e destruíam florestas à vontade, os humanos tinham mais amor pelos humanos. Agora todos se preocupam com os animais e as florestas, enquanto sonegam afetos e se lixam para outros humanos. Quer um exemplo banal? Dias antes dos avós, a internet celebrou mais uma novidade: o dia do amigo. Foi uma overdose de mensagens melosas, fotos, memes e vídeos entre os amigos virtuais. Mas na vida real, aquela onde não existem pokemons, nem copiar-colar, não vi um só amigo telefonar ou dar um abraço em outro amigo.

Por ter sido sempre um sofredor da solidão, eu ficava angustiado com essas coisas, com esse isolamento progressivo e sem saída fora das relações virtuais. Mas agora percebo que há uma outra saída. Em último caso, jogo fora o filtro de barro e compro outro filtro Europa. Continuarei só, mas pelo menos bem acompanhado.

Em outro lugar, no mesmo lugar

Talvez por causa da intensa luz desse inverno tropical, talvez porque agora me sobre tempo para coisas inúteis, talvez porque a fisioterapeuta me recomendasse cinco minutos diários de contemplação; talvez por tudo isso, o fato é que comecei a fotografar o pôr-do-sol. Todos os dias, sempre no mesmo horário, e do mesmo ângulo. Antes que você diga oh! que ideia criativa!, saiba que muita gente já fez isso antes. Teve um cara que fotografou, durante anos, o cruzamento de duas avenidas. Toda manhã, com chuva ou com sol, ele colocava o tripé no mesmo lugar e disparava a câmera na hora exata. Seu objetivo era mostrar as variações de algo que aparentemente não variava nunca. Num dia o céu estava nublado, noutro sem nuvens; às vezes o cruzamento estava deserto, às vezes cheio de carros; uma hora tinha crianças na calçada, em outra havia idosos; e por aí vai.

Nos entardeceres acontece o contrário. Como as variações são muito maiores do que em cruzamentos de avenidas, algumas fotos parecem tiradas na Patagônia, outras em Marte ou Vênus. Parecem diferentes, mas é sempre o mesmo lugar. Esse é o truque inverso: iludir o observador mostrando-lhe sempre a mesma coisa, e fazê-lo acreditar que são distintas. Como alguns escritores, que descrevem um mesmo acontecimento, narrado do ponto de vista de vários personagens. O acontecimento é um só, mas muda conforme mudam as pessoas que o vêem.

Acho que com a vida é igual. Com a minha, pelo menos, é. Às vezes, parece que nada muda, caio na rotina e nem me dou conta da mesmice, até acabo gostando do negócio, como naquela música onde todo dia tudo é sempre igual, o sorriso pontual, a espera no portão, o beijo com a boca de hortelã. Mas é só aparência. Reparando bem, nota-se que de vez em quando o sorriso fica meio nervoso, um caminhão estaciona na frente do portão, o gosto de hortelã se mistura com o de cebola, e aquilo que era imutável se mostra mutante.

Outras vezes, quando troco de namorada, de trabalho e de endereço, tudo parece diferente. Finalmente minha vida mudou!, exclamo ao abrir a janela da nova casa, fazendo boca para novos beijos. Aí, aos poucos e desconsoladamente, começo a perceber que a história é a mesma, a trama se repete, as grandes mudanças não passaram de meras adaptações no roteiro.

O problema é quando as mudanças me pegam de surpresa, e aquilo que eu acreditava estar sempre ali, ao alcance da mão, de repente vupt!, desaparece. O show “Falso Brilhante”, de Elis Regina, por exemplo. Ficou um ano em cartaz num teatro perto da minha casa. Todo dia, quando ia e voltava do trabalho, eu olhava pro cartaz que cobria a fachada do teatro e pensava: preciso comprar ingressos e assistir a esse show. Um belo dia o cartaz mudou e passou a anunciar uma peça teatral. Fiquei chupando o dedo, sem nunca ter visto Elis cantando ao vivo.

Por essas e outras, cheguei à conclusão que as coisas mudam sim, mesmo quando estão no mesmo lugar, todo dia, na mesma hora. Quem não muda sou eu, que não enxergo as mudanças e fico querendo que tudo mude, desde que fique do jeito que está. Ou melhor, do jeito que eu estou. O mais triste é que nem adianta fugir. Se eu for para um outro lugar, Patagônia ou Marte não importa, serei eu nesse novo lugar, e logo me sentirei no mesmo lugar de onde nunca saí – esse cruzamento monótono de avenidas sem rumo onde um entardecer se parece com o outro. Assim, vou ficando por aqui, até o dia em que, subitamente, não haverá mais avenidas, nem cruzamento, nem entardecer.

Até que a morte nos separe

Odeio quando vou comprar um produto que uso há anos, e o balconista me diz “não tem, não fabrica mais”. Como assim? O produto é bom, eu uso, meus amigos usam, milhares de pessoas usam. “É, mas agora tem uma nova versão no mercado”. Odeio o mercado. Odeio novas versões. Quero meu desodorante sem perfume, bom e barato, que me deixa como sou, e não parecido com um galã de shopping. Quero minha pasta de dentes normal, que limpa e refresca minha boca, sem fazer meus dentes brilharem como fileira de diamantes.

Sou um sujeito de hábitos simples, porém firmes. Jamais peço outra pizza que não seja marguerita ou portuguesa. E sempre na mesma pizzaria. Mudar prá quê? Não vejo sentido em comer a mesma coisa em outro lugar, correndo o risco de pagar mais por algo pior. Sim, tem gente que não resiste a uma novidade e vive trocando as coisas. Trocam até de mulher, seduzidos por modelos mais novos. Estou com minha mulher há mais de 30 anos, a gente se dá bem na cama, na mesa, até no banho; já enfrentamos a tristeza e a alegria, a saúde e a doença, a crise hídrica e o imposto de renda. Nunca me ocorreu que uma jovenzinha pudesse substituí-la, por mais bela e recatada que fosse.

Com roupas, é a mesma coisa. Uso o mesmo tipo de cueca há décadas. Já caí na conversa de vendedoras e tentei mudar de marca e modelo, mas nunca deu certo. Ora aperta embaixo, ora em cima, às vezes tanto em cima quanto embaixo. Sou apegado às coisas, mas não chego ao grau de fidelidade daquele americano que se casou com o smartphone, de aliança e tudo.  Aliás, desconfio dessas fidelidades. Duvido que ele não abandonará o pobre aparelhinho assim que aparecer uma versão mais moderna no mercado. Odeio o mercado e seus fiéis infiéis.

Isso não quer dizer que eu não goste de coisas novas. Gosto, mas de coisas verdadeiramente novas, não de novidades. Adoro quando emerge algo novo que desmorona o velho. Pode ser um novo ritmo musical, uma nova onda de cinema, um romance que descobre novas terras no oceano da literatura. Pode ser um movimento, como as mulheres nas ruas, ou esses bandos de moleques que invadem escolas e chacoalham governos corruptos e ineficientes. Pode ser até o meu Palmeiras, que renasce como um time novo, brilhando isolado no topo do campeonato.

Também gosto de mudanças, apesar de não conseguir mudar meu próprio comportamento, tantas vezes ridículo e mesquinho. Recentemente, mudei minha forma de dirigir, mas só porque não aguentava mais pagar multas. Gosto de mudar de ares. Gosto de mudar a roupa de cama quando termina o inverno e começa a primavera. Gosto de mudanças irreversíveis, aquelas que destroem pontes, que não deixam pedra sobre pedra. Gosto principalmente de mudanças que – como diz a letra da canção – transformam as velhas formas do viver.

Gosto, enfim, das mudanças que me fazem mudar. Acho ótimo, desde que não mexam no meu desodorante e na minha pasta de dentes – porque destes, nem a morte me separa.

O beijo de Lamourette

Ontem adormeci na poltrona, assistindo ao noticiário político, e comecei a sonhar com sessões de tribunais, quedas de ministros, ordens de prisão, delatores, traições e tumultos. Quando vi, estava numa rua estranha, no meio de uma passeata estranha. Todos vestiam roupas esquisitas e berravam palavras de ordem em francês. Percebi que estava em 1792, no meio do Terror da Revolução Francesa.

A turba que me arrastava estava enfurecida pelo alto preço do pão e boatos sobre uma conspiração para matar os pobres de fome. De repente, a multidão pegou um alto político, linchou-o, degolou-o e desfilou com sua cabeça sobre uma lança, a boca cheia de dólares falsos como sinal de cumplicidade na conspiração. Em seguida, um outro grupo de amotinados capturou uma mulher de olhos esbugalhados, que era esposa do infeliz político, e fizeram-na marchar pelas ruas com a cabeça do marido na frente do seu rosto, cantando “beija, beija”. Depois eles mataram e degolaram também a mulher, arrancaram seu coração e atiraram-no para os lados do prédio da prefeitura. A seguir retomaram o desfile com as cabeças do casal espetadas em lanças. Ela com os olhos mais esbugalhados do que nunca, e a boca também cheia de dólares falsos.

Consegui escapar por uma ruela escura, e no instante seguinte, me vi na Câmara Federal, em Brasília. O plenário estava dividido em duas alas, esquerda e direita, como na Assembléia Nacional da Revolução Francesa. Vestidos à moda do século XVIII, os deputados se engalfinhavam, quase chegando aos tapas. No momento mais aceso do debate, surge um deputado de província chamado Adrien Lamourette. Ele tem uma solução a propor: o amor. Amor fraterno. O amor pode curar tudo, pode superar qualquer divisão, diz Lamourette aos membros da Assembléia, acrescentando que todos os seus problemas derivavam de uma única fonte: o facciosismo. Eles precisavam de mais fraternidade. Ao ouvirem isso, os deputados, que um minuto antes estavam se agarrando pelo pescoço, levantaram-se e começaram a se abraçar e beijar como se suas diferenças políticas pudessem ser varridas numa onda de amor fraterno. Empolgados e lançando vivas às suas famílias, todos juram fraternidade e chegam a convidar o rei-presidente, que repete o juramento. O plenário vai à loucura. A Revolução está salva! Vive la nation!

Acordei com o coração aos pulos, minha mulher me chacoalhando, querendo saber que negócio de beijo era aquele. Expliquei-lhe que caí no sono e misturei o noticiário da TV com cenas da Revolução Francesa, que li num antigo livrinho de história. Ainda bem que não somos franceses, disse ela – se fôssemos, ia faltar guilhotina para dar conta de todos os picaretas deste país.

Minha mulher, como sempre, estava cheia de razão. Os franceses não brincam em serviço. Na época da Revolução, viraram o mundo do avesso. Além da violência das revoltas populares, eles mudaram os nomes dos meses, a medição do tempo e do espaço, a moda, as formas de tratamento, os nomes das ruas e das próprias pessoas. Queriam confiscar as terras da igreja, e eleger os padres. O Estado podia legislar sobre a igualdade, a liberdade e – por estranho que pareça – sobre a fraternidade.

No Brasil já começamos a mudar alguns nomes de avenidas, mas ainda falta muita coisa. Falta abolir o tratamento de “doutor”, por exemplo. Revoltas nas ruas também já temos, mas são muito comportadas, parecem mais um passeio de domingo. Precisamos de mais força, mais vigor. Não digo linchamentos e uma degolazinha ou outra. Apenas mais energia, impor um pouco de respeito, talvez usando bumbos para marcar o passo e os corações, como se faz em alguns países. Quem sabe, depois disso, poderemos chegar, um dia, ao beijo de Lamourette.

Vergonhas

Tive um amigo que nunca usava meias furadas. Ele dizia que morreria de vergonha se fosse parar num hospital, inconsciente, e os enfermeiros, ao descalçá-lo, descobrissem os furos. Lembro dele toda vez que estico uma meia e vejo um dedão ou calcanhar à mostra. Por sorte, nunca fui parar inconsciente num hospital, mas já passei constrangimento ao experimentar sapatos em uma loja. Arranquei a vergonha do pé, e para despistar o vendedor, pedi-lhe que trouxesse algo para usar sem meias. Saí da loja calçando um mocassim em vez do sapato social que realmente precisava, mas nem por isso deixei de usar, eventualmente, meias furadas.

Já tive vergonha de vestir calças curtas quando todos vestiam calças compridas, vergonha de ser baixinho, de ser covarde, de nunca ter uma resposta inteligente e na ponta da língua diante de uma ofensa. Tive vergonha de ser loiro num mundo de cabelos pretos. Até os dez anos, ficava envergonhadíssimo quando ia dormir na casa de parentes, porque – invariavelmente – mijava na cama. Os primos se recusavam a dormir comigo, e os tios, sempre carinhosos e engraçados, diziam que cortariam meu pinto se a cama amanhecesse molhada, ou que eu teria que limpar o colchão com a língua e passar o dia sem roupa, enquanto o pijama não secasse.

Achei que as coisas fossem melhorar na adolescência, mas em vez disso, pioraram. Tinha vergonha de trabalhar, enquanto os amigos iam pro clube. Passei a ter medo de não arranjar namorada, de errar o passo na dança, de não saber beijar. Sentia-me um completo fracasso: não sabia cantar nem tocar violão, era ruim no basquete e pior no futebol; um vexame em matemática e um desastre em trabalhos manuais. Os verbos eram minha única salvação, mas nenhuma garota se deixava seduzir pelo particípio passado do verbo crer, ou ficava excitada quando ouvia a conjugação de resfolegar, no presente do indicativo, sussurrada em sua orelha.

E assim, descrente e resfolegante, cheguei à idade adulta. As vergonhas não diminuíram, mas aprendi a conviver com elas. Não enrubesço com tanta facilidade, consigo falar em público, fiz aulas de danças de salão. Tenho uma posição respeitável na família, e os poucos tios e tias que ainda estão vivos não se recordam das camas que molhei na infância. Aprendi que a melhor arma para enfrentar o ridículo é manter uma pose de dignidade, e percebi que a covardia é mais universal do que a coragem.

Continuo tendo medo de ficar sem namorada, e hoje sinto vergonha de ir para o clube, enquanto meus amigos vão trabalhar. De vez em quando, ainda sou assaltado por velhos medos. Sonho que estou caindo de um precipício, ou me vejo pelado no meio de uma festa, tentando disfarçar a vexatória nudez. São vergonhas antigas, trato-as como se fossem companheiras de viagem, uma espécie de amigo fiel a quem se perdoa os muitos defeitos e se louva as poucas virtudes. Amigos verdadeiros talvez sejam a única coisa que realmente valha a pena, no final das contas. Eles são a garantia de que – se a morte me pegar em casa, de surpresa – minhas meias furadas serão trocadas antes que cheguem os enfermeiros. Ou não, porque amigo, amigo de verdade, não perde a chance de uma sacanagem. Mesmo que seja a última.

Renascimento à brasileira

Desocupado leitor, dizem que depois dos cinquenta, se você acorda sem nenhuma dor, é porque está morto. Hoje acordei assim, mas ao invés de morto, me senti vivo como há muito não sentia. O único incômodo foi uma sensação de estar na época errada, em alguma década do século passado. Imagine Don Alonso Quijano despertando como Don Quixote, mas sem deixar de ser Don Alonso. Em seus delírios como Cavaleiro da Triste Figura, o pobre fidalgo acreditava estar num tempo antigo, vivendo no presente. Pois eu acredito estar no presente, vivendo um tempo antigo.

O noticiário e as pessoas na padaria dizem que estamos numa nova era, uma espécie de Renascimento, mas abro a revista semanal e vejo uma reportagem sobre a primeira-dama interina do País, igualzinha àquelas que a revista Manchete fazia dos concursos de Miss Universo em 1960. Só faltou o maiô com salto alto, e a moça dizer que seu livro de cabeceira era o Pequeno Príncipe; mas essas coisas ficam subentendidas, mesmo para maus entendedores como eu.

Entro na Internet para conferir o discurso do presidente interino, e surge à minha frente um baixinho igual ao Rui Barbosa, com a cara dura de botox, o cabelo brilhando de gumex, a despejar frases afetadas e incompreensíveis. Senti-me um Sancho Pança tentando decifrar a fala empolada de seu amo. A coisa piorou quando olhei a foto do tal interino com seu novo gabinete. Sabia que já tinha visto aquela cena, mas não lembrava onde. Aí uma alma caridosa postou na rede: era a posse do marechal baixinho Castelo Branco, em 1964, rodeado por seus ministros. Todos homens, todos ricos, todos brancos. E todos velhos. Meu sangue gelou de vez quando vi que o governo interino adotaria o slogan “ordem por base e o progresso por fim”, exatamente como fez a República Velha há 126 anos, isto é, mutilando o lema criado por Auguste Comte, que tinha o “amor por princípio”. Mais um governo sem princípios, disse aos meus dois botões. Mas com muitos fins, responderam eles.

Até a bandeira nacional usada na nova propaganda é antiga, modelo 1964-68, e ouço dizer que a embaixada brasileira na França cancelou a projeção de um documentário sobre nossos impunes torturadores, alegando tratar-se de um tema “delicado”. Tirando a delicadeza da forma, é a velha e brutal censura renascendo das cinzas.

Como sou um otimista incorrigível, creio que esse presente bizarro vai acabar ressuscitando também alguma coisa boa do passado. Por isso, vesti minhas calças vermelhas, tirei do guarda-roupa meu casaco de general cheio de anéis, e agora estou aqui, na frente da TV, tomando uma fanta com gosto de crush, esperando que o Michel Teló se transforme no Taiguara; o Arnaldo Jabor, no Glauber Rocha; e o Malafaia, no Don Helder Câmara. Talvez seja sonhar demais, mas quem garante que a Suzana Vieira não vire uma Leila Diniz? Ou que o Romero Britto não se torne um Portinari, e o meu Palmeiras, uma nova Academia do futebol?

Tantas possibilidades, tantas esperanças. E tantos medos também. Confesso que estou com medo de começar a acreditar no Jornal Nacional. Tenho medo de achar que a cultura é descartável, que a Terra é plana, que somos descendentes de Adão e Eva, e que a corrupção acabou. Só espero conseguir atravessar este dia estranho e maluco sem fazer nenhuma besteira. Tipo imaginar que estou combatendo gigantes, e sair por aí destruindo esses moinhos de vento esquisitos que surgiram nas ruas de uns tempos para cá.

Os ovos de João de Barros

Eu tinha uns catorze anos quando conheci João. Um dia, ele disse vai lá em casa prá gente papear e tomar café. Fui, num sábado à tarde. Casa pequena, pobre, com quintal grande e cheio de plantas. Morava com a mãe, o pai, um monte de irmãos, gatos, cachorros e galinhas. João foi lá dentro, voltou com um livro e sentamos no quintal, à sombra de uma mangueira. Você conhece Cecilia Meireles?, perguntou. Eu conhecia só de nome, mas respondi como se conhecesse a obra toda. Ele sorriu, fingindo que acreditava em minha falsa erudição, e com voz grave e macia, leu:

“houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Neste ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz”.

Eu era pouco mais que uma criança e fiquei maravilhado. Olhei para o céu e vi o pombo branco pousado no ar, nítido e solene, ao alcance da mão. Senti-me completamente feliz. Eu ainda não sabia, mas João era o pombo e eu era o ovo. Não um ovo de louça azul, mas um ovo comum, que começava a ser chocado naquele momento, no calor do deslumbramento poético.

Não fui o único ovo chocado por João. Muitos outros descobriram as maravilhas da arte por meio dele. Uma vez, ajeitou um quartinho no fundo da casa e passava as tardes ensinando desenho, pintura e artesanato para a molecada. Depois montou uma exposição com os melhores trabalhos, no centro cultural da cidade. Nenhuma das obras juvenis foi vendida, mas a experiência marcou em muitos a certeza de que eram artistas, e assim seguiram pela vida afora.

João virou funcionário da cultura, recuperava acervos de cantores caipiras esquecidos, guardava obras de pintores que morreram jovens e alucinados, vivia catando coisas bonitas que o mundo joga fora. Se fossem objetos, recolhia-os, consertava-os, cuidava deles como se fossem crianças abandonadas. Para ele tudo era arte: pedras, galhos, folhas, bichos, vento, água, palavras. Menos gente. Gente era divindade. E amigos eram sagrados.

No fim da vida, aposentado e quase cego, cuidava da mãe centenária, da cachorrinha idosa e de um jardim de cactos. Conversava com as plantas e com espíritos, cozinhava, escrevia, limpava a casa, ouvia música e tentava usar o computador. Montou um congá no quartinho do quintal, onde fazia orações e ajudava quem precisasse de remédio para o corpo e a alma.

Um dia, a mãe morreu. João tentou levar a vida sozinho, regar os cactos, pagar as contas, mas a mãe o chamava, insistente, sentada na velha poltrona da sala. Aí ele resolveu morrer também. Segundo a família e uma amiga que cuidou dele até o fim, João morreu no hospital, depois do almoço. Alguns vizinhos, entretanto, afirmam que nesse dia viram bater as asas e sumir no céu um pombo branco que amanhecera pousado num grande ovo de louça azul, em cima da casa. Outros dizem que não tinha ovo nenhum. O pombo, asseguram, estava pousado no ar, quase ao alcance da mão.

Braga, Hemingway e eu

Hoje me sinto um Rubem Braga. Depois de muito tempo, resolvi praticar aquilo que eu e o cronista de Itapemirim mais temos em comum. Claro que o velho Rubem era muito melhor na coisa, além de ser bem mais talentoso para o ofício, reconheço. Suas proezas são famosas e podem ser lidas com deleite em coletâneas bem editadas, enquanto as minhas nem proezas são – quanto mais famosas ou bem editadas. Não, não estou falando de crônicas; estou falando de pescarias.

Braga gostava de pescar no mar, próximo à costa, buscando peixes de tamanho médio, ligeiros e bons de briga, como anchovas, douradas, cavalas. Aos 22 anos ele era um pescador experiente, e nessa idade, escreveu uma crônica que é uma verdadeira obra-prima. Não tem nenhum peixe na história, apenas uma pescaria comum: levantar antes de raiar o sol, comprar iscas frescas, pegar sanduiches e água. Depois tem os pés na areia molhada de orvalho, o cheiro da maresia, o bote, o remo, as manobras pra vencer as ondas, a leitura do vento e das nuvens, o sol, o balanço da água. E tem a moça que ele levou junto, enamorado, para mostrar a ela a beleza do mar, o mistério do mar, a paixão que brota do mar. Queria mostrar a ela que pescar é um ato cheio de amor e poesia, mas a jovem não enxerga o que ele enxerga, não sente o que ele sente, não entende o que transborda pelos olhos dele. Ela não quer pescar, quer comer o sanduíche antes da hora certa e saber quando irão embora. Ele se dá conta, então, que ela é da terra, irremediavelmente da terra; um ser estranho naquele mundo marinho ao qual ele pertence como um peixe, mas ela nunca pertencerá. Desencantado, ele recolhe as linhas, o desejo e a poesia; e embica o bote para o continente.

Outro pescador dos bons era Ernest Hemingway, que gostava dos grandes peixes que habitam as profundas correntes oceânicas. Para Hemingway, pescar era testar os limites humanos. Mais do que uma luta do homem contra o peixe, uma luta do homem contra o homem. A novela do velho que pescava sozinho num bote, na corrente do Golfo do México, e que depois de 84 dias sem pegar um peixe fisga um marlim colossal, rendeu-lhe o prêmio Nobel de literatura. Mas em seu último romance – “As ilhas da corrente” – uma obra declaradamente autobiográfica, Hemingway volta a narrar outra pescaria épica, também de um marlim de 400 quilos, só que agora fisgado por um garoto de 12 anos. Como na história do velho e o mar, não há vencedor nem vencido: depois de um dia inteiro de batalha o gigantesco peixe consegue fugir, e o menino consegue sobreviver à dor de ver o troféu escapar-lhe pelas mãos ensanguentadas.

Minhas pescarias não são poéticas como as de Braga, nem heroicas como as de Hemingway, mas não deixam de ser literárias. Meu negócio são os rios, lagoas, essas águas pequenas. Enquanto pesco, fico imaginando que escrever nada mais é do que lançar um anzol nas águas da imaginação para fisgar palavras. O tema é a isca que pode atraí-las. Algumas surgem do nada e engolem a isca inteira. Outras se aproximam desconfiadas, cheiram o anzol, dão umas beliscadinhas e vão embora. As palavras, como os peixes, gostam de silêncio. Qualquer barulho as assusta, qualquer gesto brusco as afugenta. Sempre fico feliz quando consigo fisgar uma tilápia, um piau, um lambari que seja. Tirá-las da água, isto é, colocá-las no lugar exato dentro do texto, é a parte mais difícil. Às vezes exige heroísmo, como em Hemingway; outras vezes amor e poesia, como em Rubem Braga. E no final tudo pode ser apenas mentira, como em todas as histórias de pescador. Mas isso não tem a menor importância.