Citizens 1-2-2013

Citizen Zé

Nasci e cresci nas quebradas. Não sou nada. Não sou contribuinte. Nem prezado ouvinte. Só sou eleitor. Cidadão, entendeu? Uma vez, uns estudantes disseram que eu era o citizenzé. Pedi que botassem no papel e vi que era Citizen Zé. Falaram que era por causa de um filme aí. Curto filme brasileiro e dublado, mas os caras disseram que esse um só tinha com legenda. Essa moçada, depois que acende uns beques, gosta de zoar.

Já fiz de tudo. De tudo, entendeu? Só não matei. Ainda. Tenho escola, quando era pivete fui urubu de lixão, catava revista e jornal só pra ler. Também achava muito livro. Como tem escritor zé! Achei um tal de Zé Lins, que era louco por sacanagem num engenho de cana. Depois catei um tal de Zé Mauro, que não sabia se comia as índias ou virava santo. Na dúvida, o cara enchia a cara, manguaçava o dia inteiro.

Depois virei boy de escritório. Aí fiz supletivo, ganhei uns trocos, cheguei no curso técnico. Não tenho carteira assinada. Hoje faço qualquer tipo de serviço. Qualquer tipo, sacou? Tenho celular e cartão de visita. Atendo madame chiliquenta, velha aposentada, coroa maluco. Cobro conforme a cara do freguês. Moro numa ocupação da hora. Antigamente era cortiço. Tem muita treta, muito beó, e muita festa. Sou chegado num som, curto uma de DJ. Quem manda na ocupa são os sem-teto. A sintonia geral é na reunião do conselho. Tudo na lei. Vacilou, dançou.

Conheço todo mundo na rua. Porteiro, guarda-noturno, puta, malabarista, traveco, catador, flanela, nóia. Os bacanas tem medo de gente da rua. Tem mais é que ter mesmo. Mas num devia. É tudo mano, gente boa. Só que ninguém olha, ninguém vê. Gente invisível. Gente sombra. Que nem gari. Que nem pixador. Um pixo que eu curto diz que em casa de moleque de rua, o último que dormir apaga a lua. Me amarro na lua.

Curto história de bandido, assaltante, traficante e político. Leio no jornal. Vejo na TV. Tô por dentro das paradas. E digo de boa: serviço sujo tem em todo lugar. Tem quem faz. Tem quem não faz. E tem gente que não sabe fazer. Eu sei, mas não faço. O problema são os detalhes. E as mulheres. Bandido bandidão tem sempre advogado chique e um mulherão do lado. E se não souber controlar, complica. Lembra aquela Mônica do Renan? Quase fudeu o cara. Eu sei o nome de todas elas. Duvida? Aí ó: a Suzana do PC, a Andressa do Cachoeira, a Danúbia do Nem, a Jaqueline do Gaguinho, a Silvânia do Elias Maluco, a Maria do Marcinho VP. Essas são fiéis. Tudo irmã. Sem vacilo. Tudo fazem e nada falam. Uma mulher dessas, meu irmão, não tem preço. Fico até pensando se, apesar da sujeira, não tá tudo limpo.

Mas tem jogada que eu não entendo. Tão falando que não vai ter copa. Acho uma puta sacanagem. A copa vai ser o maior boi, vai ter prá todo mundo, no Brasil inteirinho. Agora com tudo em cima, arena pronta, barraco enfeitado prá turista, malandro falando inglês, a bola não vai rolar? Tem bagulho grosso no meio disso. Sempre tem. Não perco um movimento de rua, mas tô fora desse. Já mandei renovar o cartão de visita, e tô pensando em botar um site na internet. Essa vai ser a copa dos moleques. Não tem prá ninguém. A sexta taça do Brasil, brother. A primeira do Neymar. E a última da Larissa Riquelme. Eu sei o nome de todas elas.

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