urubu

Conde, pombas e urubus

Atrasado para uma reunião, passei por minha mulher e ela sentada à mesa disparou: as pombas são burras. Parei com a mão na maçaneta e perguntei por que. Ora, disse ela, porque deixam que um único e atrevido sabiá lhes roube a comida. A comida é delas, elas que acharam. Aí um sabiá mergulha num golpe e pousa no meio do bando, ergue a comida no bico e bate as asas enquanto elas nem percebem quem as roubou – ficam girando e arrulhando, feito bobas. Eu ia dizer-lhe que essa era uma lei natural, um sabiá ligeiro, sabidamente, leva vantagem diante de pomposas pombas. Mas não falei nada, apenas dei o fora. Depois, fiquei pensando.

E pensei mais antes de escrever, porque passarinho é lance de cronista profissional, o que não é o meu caso, um reles escriba não remunerado. O socialista Rubem Braga, por exemplo, usou e abusou de passarinhos. Quando queria dar uma estocada mais funda, atacava de passarinho. Uma vez fulminou o mais poderoso industrial da época – o conde Matarazzo – com um mísero passarinho. O passarinho bicara o peito do conde para furtar-lhe uma medalhinha presa na lapela. Braga tomou o partido da ave, porque um passarinho, argumentou, canta e voa, enquanto um conde industrial não sabe gorjear nem voar. O industrial gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, das máquinas de aço e de carne que trabalham para ele. O industrial gorjeia com o dinheiro que entra e sai dos seus cofres. Um passarinho não é industrial, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho – escreveu ele.

Muitos acreditam que Braga queria ser um passarinho, mas sua vida nunca foi orientada para isso. Ele queria ser um urubu, porque é maior e mais triste. E tem o bico mais forte. Um urubu, explicou, teria arrancado o coração do conde em vez de tirar-lhe apenas a medalhinha. Braga era um sujeito doce, mas politicamente era um black bloc. No texto contra o magnata, ele diz que a vida é estar num bonde, falando ao motorneiro. É essencial falar ao motorneiro, afirma. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então, ele orienta didaticamente, o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

O que isso tem a ver com o sabiá e a burrice das pombas? Ora, tudo. No reino humano, pequenos sabiás também não fazem mal a ninguém. Quando crescem, param de roubar trocados da avó, nutella do supermercado, toca-fitas usados. O problema é quando o sabiazinho se torna um sabiazão que quer roubar tudo e mandar em todo mundo, daqueles que acham que as pombas nunca enxergam nada e sempre deixam que lhes tirem a comida, a casa, a saúde, a coragem, o riso, e por fim, até a liberdade de arrulhar.

Quando isso acontece, é sinal que o sabiá ladrão ocupou o lugar do motorneiro e se faz de surdo. Às pombas só resta tomar-lhe o bonde das mãos e comê-lo picadinho com farofa. Mas as pombas nada fazem a não ser ficar girando com os olhos pro chão, dando cabeçadas e arrulhando indignadas. Assim como Rubem Braga, também prefiro ser uma ave, em vez de conde. Menos pomba. Pomba não. As pombas definitivamente são burras. E o bico não presta pra nada.

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