Mulheres Oniricas

Conversa de mulher

Vivi a maior parte da minha vida no meio de mulheres, conheço mulheres, lido com mulheres, e – como disse Rubem Braga a respeito de livros – sou capaz de distinguir uma mulher à primeira vista no meio de quaisquer outros seres, sejam animais, vegetais ou minerais. Autênticos ou imitações.

Cresci paparicado, protegido, amado e também criticado por mulheres. Fui criado num mundo cheio de calcinhas no banheiro, grampos em cima da pia, potes destampados, band-aids pelo chão e objetos desaparecidos. As perguntas que mais ouvi na vida foram “cadê…?”, “onde foi parar…?” e “alguém viu…?” Minha infância foi povoada por bobs e impregnada pelo cheiro de laquê, esmalte e acetona. Desde cedo aprendi a diferença entre um dia normal e um daqueles dias. Também aprendi que choro e riso, tristeza e alegria, são coisas naturais da vida, às vezes quase simultâneas.

Vieram de mulheres meus primeiros estímulos para ler e para escrever. De mulheres recebi as primeiras noções de indignação e solidariedade. Conheci mulheres operárias, artistas, camponesas, intelectuais. Mulheres guerrilheiras e mulheres policiais. Algumas livres, outras cativas. Algumas fortes, outras frágeis. Em todas, a mesma busca de carinho e de aventura. O mesmo fascínio pelo riso e pela virilidade. O  olhar observador, o encantamento pela vida. A mesma fome de viver e a mesma generosidade. A mesma delicadeza. Até naquelas com as asas cortadas, o corpo ferido e a alma mutilada. Naquelas sem futuro. Aquelas garotas com bebês de verdade porque não os tiveram de brinquedo.

Lennon disse que a mulher é o negro do mundo. Tenho minhas dúvidas. Os negros se emanciparam no século 19. As mulheres se libertaram do estatuto jurídico de inferioridade somente no século 20.

A primeira tentativa de cidadania feminina surgiu na Revolução Francesa, que pregava, entre outras coisas, o direito da mulher subir ao cadafalso. Ironicamente, a França foi um dos últimos países a permitir o voto feminino:  só o fez depois da Segunda Guerra.

No Brasil, até 1970, mulheres precisavam da autorização do marido para abrir conta em banco.  Aqui elas avançam em setores estratégicos, incluindo o judiciário, mas ainda tem presença minúscula na política: menos de 10% das cadeiras do Congresso. Somos governados por uma presidenta, mas ainda falta muito para chegarmos perto da Islândia ou da Noruega, países com a maior igualdade de gênero do mundo.

Até lá, vamos vivendo essa vidinha machista, limitada e antiquada. Até onde enxergo, não vejo mulheres buscando vingar as injustiças históricas que sofreram e sofrem. Acho que elas buscam uma posição econômico-social igualitária, um mero reconhecimento da sua contribuição para o desenvolvimento humano, sem inverter o sistema de dominação.

Falta a nós, homens, coragem para esse reconhecimento. Falta-nos hombridade para dizer a elas: valeu, meninas! Eu mesmo recebi muito das mulheres. Mas nem sempre retribuí à altura. Ao contrário, as pessoas que mais machuquei na vida foram mulheres. Com os homens aprendi a ser homem. Com as mulheres aprendo a ser um homem melhor. Se ainda não melhorei o suficiente, a culpa, definitivamente, não é delas. Eu é que sou meio loiro.

6 respostas
  1. Marilia Lima
    Marilia Lima says:

    Cezar, não poderia ser diferente vindo de você. Texto lindo. Parabéns e obrigada pelo carinho da escrita. Beijos grandes.

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  2. Marina Pontual
    Marina Pontual says:

    Carissimo, é sempre bom ler e ouvir coisas como essa ou as do tipo que o irmão da Daniela Dolme postou, contando a História através de várias heroínas.
    De fato, creio que um dia voltaremos a ser mulheres verdadeiramente, sem medo de sermos felizes.

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  3. Luciano Moraes
    Luciano Moraes says:

    Lindo texto prum loiro (rs). Que bom que deu para concentrar os textos no site. Fica mais fácil encontrá-los. Grande abraço Cezar.

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