Fim de jogo_ToninhoCury

Copa além da imaginação

Nunca imaginei que a Copa seria como está sendo. Não me refiro apenas ao futebol, mas às coisas que giram em torno de um Mundial, e que só percebemos quando acontecem dentro da nossa casa.

Confesso que no começo estava um pouco apreensivo, porque embora lindos e alegres e morando num paraíso natural, somos um país pobre. Temos sérios furos no sofá e vistosos rasgos no tapete. Também temos violência, filha direta da pobreza. A campanha negativista da mídia – ideológica, eleitoreira e fake – nunca me preocupou. Mas uma pergunta não me saía da cabeça: como reagiria o Brasil profundo e faminto de tudo, diante das legiões de turistas ingênuos, ricos e apetitosos?

Ora, o Brasil reagiu muito bem. O clima é de festa, confraternização, hospitalidade. Apenas uma ou outra indelicadeza, como xingar a presidenta e vaiar o hino nacional dos outros, mas no geral nada grave, capaz de manchar o evento ou a nossa reputação.

A quantidade de estrangeiros é tão grande que parece ser o Brasil que viaja e não quem recebe os viajantes. Em São Paulo, o Ibirapuera está com cara de Hyde Park. A Vila Madalena virou o Quartier Latin. Nas demais cidades-sede, acontece o mesmo. Todo mundo tirando selfies e casquinhas com os gringos, grupos de turistas marchando atrás de bandeirinhas-guias numa enorme excursão multinacional. O turismo já tinha chegado à classe C; com a Copa, atingiu também as classes D e E. Até que enfim, o país inteiro saiu de férias, foi passear pelo mundo, assistir ao vivo um Mundial de futebol. Inimaginável.

Duas coisas me encheram de orgulho. Uma, já esperada: nossa imensa hospitalidade e cordialidade, que causam espanto a estrangeiros pouco habituados a gentilezas extremas. Para alguns povos, indicar o caminho para um estrangeiro é um sacrifício. Levar o turista até o destino, impensável. Pois os brasileiros estão fazendo isso, e muito mais. Os brasileiros estão dando uma aula de honestidade e de eficiência ao mundo em geral, e à FIFA em particular. Carteiras e objetos perdidos são prontamente devolvidos a seus donos. Há muito mais golpistas estrangeiros do que nacionais. A maior falha de segurança até agora – a invasão do Maracanã pelos chilenos – foi culpa da FIFA.

E a pitanga do bolo: nossa polícia, que desbaratou e prendeu a máfia de ingressos que agia há anos dentro da própria FIFA, liderada pela família do poderoso chefão mister Blatter. A quadrilha atuou nas últimas quatro Copas, na Itália, nos EUA, na França, na Alemanha – debaixo dos narizes dos Carabinieri, do FBI, da Interpol e da Bundespolizei. Sempre invejei essas corporações, e hoje não invejo mais, graças aos nossos meganhas. Inimaginável.

Só uma coisa ainda me causa inveja: a Costa Rica, pelo seu desenvolvimento social, pela erradicação do analfabetismo, pela extinção do exército. Os costariquenhos nos ensinaram que no jogo coletivo a psicologia é boa, mas a sociologia é indispensável. Agora, a Colômbia fazer o que fez nesta Copa? Inimaginável.

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