futebol antigo

Copa e cozinha

Enfim, a Copa vai começar. Seleções do mundo inteiro já desembarcam no país, hordas de torcedores invadem nossas fronteiras por terra, mar e ar – sem ligar a mínima para os custos do evento e a corrupção da cartolagem. A campanha negativista da grande mídia vai arrefecendo, e nas ruas as passeatas dividem espaço com pinturas no chão, bandeirinhas nos fios e bandeironas nas sacadas e janelas.

Engana-se quem pensa que o sinal verde para o Mundial será dado pelo comitê organizador ou pela Fifa. A maior evidência de que a Copa está entre nós vem de minha mulher, que finalmente abriu a tabela dos jogos que jazia há semanas na mesa da sala. Seu próximo passo será perguntar quem é o goleiro brasileiro (o fascínio pelos goleiros!), quem é o capitão, e o nome do técnico. Aí, e somente aí, estará tudo pronto para o pontapé inicial.

Essa Copa ficará na história, seja qual for o clima político, seja quem for o campeão. Só me preocupa o oba-oba. A certeza de que o Brasil será vitorioso é tão grande que podíamos pular etapas e disputar apenas o primeiro e o último jogos. Creio que somente em 1950 e em outras duas Copas nossa esperança foi tão forte.

Uma em 70, no México, quando a certeza do tri começou nas eliminatórias, com as “feras do Saldanha”, o genial e genioso jornalista. Foram 6 vitórias, 23 gols marcados e 2 sofridos. Média de 3,8 gols por partida. Mas Saldanha não resistiu à política da ditadura. Incomodados em ver um comunista com tanta visibilidade, os militares pediram sua cabeça. João Havelange atendeu-os e colocou Zagallo no comando. O rendimento caiu no torneio (6 vitórias, 19 gols pró e 7 contra, média de 3,1 gols), mas foi suficiente para marcar a seleção de 70 como um dos maiores times de todos os tempos.

A outra, em 82. Tínhamos o maior time de todos os tempos, e jogávamos o futebol mais bonito do planeta. A euforia atingia até a política. O clima era de eleicões diretas, anistia, festa cívica. O desempenho nas eliminatórias não foi arrasador, mas convenceu: 4 vitórias, 11 gols marcados, 2 sofridos, média de 2,7 gols. Vitória difícil na estréia, e depois só goleadas. Nas oitavas, despachamos prá casa a campeã Argentina e fomos em busca de um mero empate com a Itália, para chegar à semifinal. A Itália, nossa freguesa. A Itália, medíocre na fase inicial, com apenas 3 empates e 2 gols. A Itália, terra do amigo Pierpaolo, que preparou uma bacia de espaguete à carbonara para celebrarmos a vitória brasileira. A Itália, que nos meteu 3×2, enfiou nosso futebol-arte no saco, tornou intragável o carbonara de Pierpaolo, e sagrou-se a segunda tricampeã do Mundo.

Por essas e outras, fico com os dois pés atrás quando vejo esse clima de já-ganhou. Prefiro o espírito de luta canino, típico dos viralatas. Novamente, jogaremos de salto alto. Repete-se o trágico favoritismo de 50. Por precaução, quando minha mulher já souber o nome do técnico e autorizar o apito inicial, vou tirar a TV da copa e botar na cozinha. Torcerei com um olho no jogo e outro em Nick, meu velho, fiel e bravo viralata – minha alma gêmea . Com isso, a vitória estará garantida.

1 responder
  1. Gloria Velasco
    Gloria Velasco says:

    Caro Cezar, ótima goleada! Ri muito, na esperança de não chorar depois. Na copa de 82, que assisti num bar ai em SP, o público murchou, engoliu seco a vitória dos itálicos, e nosso amigo italiano ao lado, se debatia entre o temor e a expansão da alegria.Foi um constrangimento geral. Hoje, jogo inicial, fiquei pasma com a hospitalidade dos nosso jogadores aos croatas, fazendo-lhes a gentileza do gol de honra! E mais com a declaração do jogador que o cometeu, não ficou impressionado nem um pouco, disse ele, isso acontece!
    Acho melhor seguir o compasso da sua esposa.
    Abraços

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