Pets

De novo

De novo o Natal. De novo o ano novo. De novo iremos pensar – por alguns momentos – que milagres existem, que somos irmãos, que pertencemos a uma grande e amorosa fraternidade cristã. Mesmo que 2/3 do mundo estejam fora dessa irmandade. De novo acreditaremos que o futuro será melhor. E desejaremos que todos tenhamos paz, harmonia e prosperidade. Mesmo que a violência, a discórdia e a miséria arranhem nossa porta.

Depois de quase 60 anos, estou ficando cansado dessas esperanças natalinas. Pior ainda, as coisas me parecem mais confusas do que nunca. Vejo pessoas que defendem os direitos de cachorrinhos, vacas e peixes, mas ignoram ostensivamente crianças famintas e abandonadas. Vejo símbolos da justiça e igualdade na prisão, enquanto símbolos da corrupção e da desigualdade passeiam livremente por aí. Vejo gente que acredita que fadas e duendes protegem as águas e florestas, quando é evidente que essas entidades medievais são ruinzinhas de serviço e inúteis perante o avanço da moderna degradação ambiental.

Vejo amigos que marcharam juntos nas jornadas de junho se estranharem nas redes sociais, uns atirando pela esquerda, outros atirando pela direita. Vejo coisas diferentes – e opostas – serem colocadas no mesmo saco. Enquanto alguns confundem crises de lideranças com crises de idéias, e anunciam a todo momento a morte da “liberté, égalité, fraternité”, eu penso nas palavras de Norberto Bobbio como se fossem uma oração: “O impulso em direção a uma igualdade cada vez maior entre os homens, é irresistível. Cada superação desta ou daquela discriminação, com base na qual os homens dividiram-se em superiores e inferiores, em dominadores e dominados, em ricos e pobres, em patrões e escravos, representa uma etapa do processo de civilização. Jamais como em nossa época foram postas em discussão as três fontes principais de desigualdade: a classe, a raça e o sexo”.

Também recorro a um outro mantra – este de Claudio Willer – quando ouço dizer que a arte e a rebeldia não fazem mais sentido: “Proclama-se a toda hora o ‘fim’ e a ‘derrota’ das vanguardas; fim do surrealismo; fim da beat, fim da contracultura, derrota das rebeliões juvenis. Como isso é reacionário. Fim, coisa nenhuma: esses movimentos e autores produziram informações relevantes, muitas das quais ainda por serem examinadas e entendidas; impulsionaram avanços reais; ignorá-los é modo de isolar o que incomoda a conservadores e àqueles que não admitem que a marcha da história deixe de obedecer a um paradigma determinista”.

Essas idéias me revigoram.  Quando dou por mim, já estou pensando mais no futuro do que no passado, acreditando mais na força da história do que na capa da Veja. De novo, sinto ímpetos de botar uma capucha, pegar uma lata de spray e sair procurando pedras no meio do caminho. De novo a poesia parece necessária e transformadora. De novo, lutar faz sentido. De novo a vontade de cantar. De novo é Natal e ano-novo. De novo tudo. Ou nada.

1 responder
  1. Dinesi
    Dinesi says:

    Comentário possível: “A fraternidade é uma das mais belas invenções da hipocrisia social.”
    ―Gustave Flaubert

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