dez_mandamentos

Decálogo

Natália, uma amiga poeta, postou na internet uma deliciosa brincadeira: ela construiu dez imagens usando sempre o número dez (dez palavras, dez estrelas, dez acasos, …), e o resultado ficou dez. Gosto muito de expressões com significados abertos. Há quem diga que a poesia é a conciliação de opostos, e eu concordo. Mas nem sempre o poeta trabalha usando esse meio, ou com esse fim. No caso de minha amiga, sua intenção foi jogar imagens no ar, e deixar que a imaginação de quem lê faça o resto. O número dez não é aleatório. Ele é a quantidade das leis divinas, e o número de dedos que temos nas mãos e nos pés. É a base do nosso sistema métrico, e também o número do equilíbrio emocional e da chance de salvação (contamos até dez para não explodir de raiva, ou para dar tempo de alguém fugir e se esconder). Dez identifica a melhor garota ou o melhor garoto da turma, e no caso da minha amiga, serviu como uma luva para seu intento poético. Meu objetivo aqui não é ser poeta, e sim mostrar como uma imagem aberta é rica de significados, e como a intensidade poética aumenta quando opostos se aproximam. Inspirado pela idéia de Natália, construí dez imagens e acrescentei dez possibilidades de significados em cada uma. Se você quiser, descubra outros sentidos além desses dez, ou crie seu próprio decálogo. Chame os amigos e diga que é um jogo que você inventou. Pode ser um exercício interessante, principalmente nesses tempos de ódios digitais e balas, bombas e pedras. Tempos em que todos falam, ninguém se entende e não há poesia que concilie os opostos.

I –    dez gritos: de alegria, de dor, de prazer, de medo, de alerta, de ódio, de frescura, de socorro, de gol, parados no ar.

II –  dez gotas: de sangue, de veneno, de bálsamo, de cólera, de lágrimas, de chuva, de chanel no. 5, de suor, de ácido, da poção mágica, de água no cantil.

III – dez minutos: de vida, de amor proibido, de desatino, de horror, de oração, de delírio, de burrice, para a chegada, para a partida, para o fim.

IV –  dez passos: para a felicidade, para o abismo, para a vitória, para a derrota, no ar, para o cadafalso, para o sucesso, dobles, bêbados, para a liberdade.

V  –  dez linhas: de despedida, de amor, censuradas, de um náufrago, inacabadas, em branco, tortas, delirantes, obscenas, suicidas.

VI –  dez olhares: famintos, de cigana oblíqua, incendiados, gelados, hipnóticos, cúmplices, de desprezo, enlouquecidos, fixos, esgazeados.

VII-  dez caminhos: suaves, da roça, de ferro, do bem, do mal, da glória, da perdição, da salvação, cruzados, sem volta.

VIII- dez dias: inesquecíveis, para esquecer, de sol, de festa, de chuva, entre a vida e a morte, em silêncio, de procura, de rebeliões, à deriva no mar.

IX –  dez noites: de sonhos, de pesadelos, cósmicas, insones, sem versos, sem amor,  de luxúria, solitárias, com galos, à deriva no mar.

X  –  dez versos: sem rimas, sem métrica, sem lógica, com abismos, com pedras, sem caminhos, viscerais, com fome, com uivos, sem sentido.

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