Cama de livros

A difícil arte

Volta e meia entro na internet em busca de palavras e assuntos aleatórios, só pra ver o que aparece. É divertido, muitas vezes óbvio ululante, e às vezes surge algo diferente e interessante. Nesta semana, em conversa com amigos, descobri que existe em Maringá um fã-clube secreto de Ivan Lessa (não vou detalhar quem é Ivan, vire-se sedentário leitor). A lembrança desse genial não-escritor – e de um conto seu chamado “A difícil arte de não escrever” – me acendeu a curiosidade de saber que outras difíceis artes poderiam estar disponíveis na web. Encontrei várias, infelizmente óbvias em sua maioria, e nem sempre resistentes a um olhar crítico.

Eis a lista devidamente comentada, na ordem apresentada pelo Google:
a difícil arte de amar (concordo, mas ser amado requer muito mais engenho e empenho),
a difícil arte de seguir em frente (me parece fácil, difícil mesmo é seguir pelas veredas tortuosas),
a difícil arte de amar on line (facinho facinho, até as crianças estão fazendo),
a difícil arte de ensinar (essa é moleza, todo mundo pratica; difícil de verdade é aprender),
a difícil arte de ser mãe (há controvérsias, ser filho também não é fácil; madrasta então, nem se fala),
a difícil arte de ver Rubem Alves (erro do Google; foi Rubem que escreveu algo sobre o problema de enxergar – embora eu concorde que ver ou ler Rubem Alves é arte das mais áridas),
a difícil arte de dizer não (difícil, mas tá cheio de neguinho que é mestre nisso; políticos pegos com a mão na cumbuca, por exemplo),
a difícil arte de dizer não aos filhos (válido para classes A e B; nas classes C e D, pedreira mesmo é conseguir dizer sim aos barrigudinhos).

No fim da lista vinha a supostamente difícil arte de escrever e algumas das suas aplicações, como escrever um telegrama. Nem sei se ainda tem gente que escreve telegramas. E escrevê-los não me parece difícil, pois a nova teclagem digital é neta da velha linguagem telegráfica. Complicado seria atualizar algumas abreviações, saber por exemplo que “pt saudações” não é um conjunto de punhos erguidos.

Mas escrever não é difícil – como sacou Ivan Lessa. Qualquer um pode escrever um livro. Mesmo que não sejam bons, livros são úteis como peças de decoração, suporte para pernas de mesas, ou pesos para musculação. Ivan dizia que escrever livro é coisa de pobre, de gente que lê a Veja. Difícil de verdade é não escrever. Não incomodar os demais, ocupados com seus “mistérios e empombações”. Fale baixo, recomendava ele.

Ivan Lessa não tinha piedade de quem se acha, dos presunçosos, dos arrogantes, dos pedantes, dos malas, dos exibicionistas, dos interesseiros, dos hipócritas, dos certinhos, dos aduladores, dos donos da verdade, dos pseudos em geral.

A arte mais difícil, para ele, era ser menos, ser pouco, ser leve. Tinha um humor corrosivo, que usava tanto para atacar e denunciar (“no Nordeste, vomitar é sinal de status”), quanto para enfrentar os perrengues da vida. Pouco antes de sair de cena, disse que a morte era a cura definitiva da calvície, e torcia para que existissem virgens do outro lado. Eu não tenho problemas de calvície. E torço para que não existam virgens do lado de lá. Assim, quem sabe, num ataque de secura, Ivan volte para cá.

4 respostas
    • Gloria Velasco
      Gloria Velasco says:

      Humor corrosivo, em altas doses, está faltando no mercado da mídia.Sem isso, engolimos as cracas.Uma delas: o atraso de 03 anos para dar andamento na investigação de corrupção do caso Alston pelas autoridades brasileiras. Devido ao requerimento suíço, que solicitava investigação, ser arquivado na pasta errada, conforme justificou o Procurador da República (FSP, 20|01|2014). A culpa é sempre do mordomo, óbvio.
      Saudades do pessoal do Pasquim e do Ivan Lessa que você e o pessoal de Maringá não nos deixa esquecer.

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      • Cezar Bergantini
        Cezar Bergantini says:

        Também sinto saudades, Gloria. Tá faltando jornalismo sem rabo preso com poderosos. Fernando Morais conta que Claudio Abramo ligava toda manhã, com o seguinte diálogo: já leu os jornais, Fernando? Já li, Claudio. E já vomitou?…

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