maio 68 paris

E agora?

Às vezes, acontecimentos distantes no tempo e no espaço acabam por juntar seus significados num mesmo momento e lugar do futuro, produzindo outros acontecimentos, com outros significados, que por sua vez geram novas situações – e assim por diante. Pensei nisso quando vi os atentados na França.

Lembrei, por exemplo, das revoltas que agitaram Paris em 1968, dos jovens em barricadas atirando molotovs e gritando que “a violência e a revolução são os únicos atos puros”. Naquela época, na Inglaterra, Lindsay Anderson rodava “if”, o filme que venceria o Festival de Cannes do ano seguinte. O protagonista era o estreante Malcolm McDowell, que na cena final lidera um ataque a tiros e granadas contra professores, padres, militares e familiares numa escola pública inglesa. O filme era uma alegoria a favor da liberdade de costumes, do sexo livre, da bebida e do cabelo comprido, e fez enorme sucesso.  Tanto Anderson quanto McDowell não podiam prever que, numa noite de 2015, as ruas de Paris seriam atacadas por terroristas jihadistas, jovens também, combatendo a liberdade que “if” e os revoltosos de 68 ajudaram a conquistar, com a mesma crença de que a violência é um ato puro. Se pudessem prever essa barbárie, eles provavelmente teriam se perguntado: “e agora?”

Em 1897, o imigrante alemão Rudolf Diesel, nascido na França, inventou o motor que levou o mundo a um novo patamar de conforto, mobilidade e eficiência. Sem querer, Diesel inventou também a indústria do petróleo, que jorrava farto em terras americanas. Hoje os motores a diesel são encontrados nos mais longínquos lugares do planeta, onde também estão as maiores fontes de petróleo. Para beber desses poços, as potências ocidentais invadem e destroem países inteiros, aliam-se a governos sanguinários, e combatem grupos extremistas que ameaçam bloquear seu acesso ao precioso óleo. Diesel jamais imaginaria essa guerra pelo combustível de seu motor, muito menos, o horror que ela levaria às ruas de Paris numa agradável noite do ano 2015. Se imaginasse, certamente teria pensado com seus botões: “e agora?”

Atualmente, nos revoltamos contra aqueles que matam gente próxima de nós – como as vítimas do 11 de Setembro e do 13 de Novembro. É compreensível, temos uma identificação com esses mortos, geralmente conhecemos alguém que conhecia alguém que estava lá ou morreu num desses atentados. Mas a maioria de nós – governos e mídia incluídos – pouco ou nada faz quando assassinos – religiosos ou não, organizados ou não – atacam moradores de favelas, menores de rua, mulheres na Nigéria, estudantes no Quênia. Hoje essas violências acontecem longe dos nossos corações e mentes, mas se nada fizermos para combatê-las, o futuro é fácil de imaginar. Basta nos perguntarmos “e agora?”. Agora.

 

PS:  Sempre acreditei que as riquezas naturais do Brasil eram imensas e inesgotáveis, e que, de uma forma ou de outra, estariam protegidas de ameaças. Também acreditei no discurso das empresas pelo respeito à vida, à sociedade ao planeta. De repente, descobri que um dos nossos maiores rios pode morrer em questão de dias, que estamos rodeados de lama tóxica em barragens mal construídas, que nossas grandes empresas são irresponsáveis, mesquinhas, incompetentes e estão se lixando pra tal de responsabilidade social e ambiental. Por fim, descobri estarrecido que sou impotente para mudar essa situação, e que a tarefa de criar leis e controles está nas mãos de políticos comprados pelas próprias empresas que deveriam fiscalizar. A pergunta me surgiu naturalmente: e agora?

1 responder
  1. Jary Mércio
    Jary Mércio says:

    Muito bom, Berga. Como se dizia, falou e disse. O terror vem de longe e está em toda parte. Até no rio que era doce e se acabou. Rio e também posso chorar, dizia o Melodia sobre outro assunto. Nesse caso, só podemos chorar um rio de lágrimas, mas também de nada adianta. Talvez aqueça o mercado de lenços, mas não será isso que vai melhorar a economia do País (o que também já é um outro assunto). Como você bem disse – com outras palavras – está tudo dominado. Parabéns sempre!

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