Pordosol

Em outro lugar, no mesmo lugar

Talvez por causa da intensa luz desse inverno tropical, talvez porque agora me sobre tempo para coisas inúteis, talvez porque a fisioterapeuta me recomendasse cinco minutos diários de contemplação; talvez por tudo isso, o fato é que comecei a fotografar o pôr-do-sol. Todos os dias, sempre no mesmo horário, e do mesmo ângulo. Antes que você diga oh! que ideia criativa!, saiba que muita gente já fez isso antes. Teve um cara que fotografou, durante anos, o cruzamento de duas avenidas. Toda manhã, com chuva ou com sol, ele colocava o tripé no mesmo lugar e disparava a câmera na hora exata. Seu objetivo era mostrar as variações de algo que aparentemente não variava nunca. Num dia o céu estava nublado, noutro sem nuvens; às vezes o cruzamento estava deserto, às vezes cheio de carros; uma hora tinha crianças na calçada, em outra havia idosos; e por aí vai.

Nos entardeceres acontece o contrário. Como as variações são muito maiores do que em cruzamentos de avenidas, algumas fotos parecem tiradas na Patagônia, outras em Marte ou Vênus. Parecem diferentes, mas é sempre o mesmo lugar. Esse é o truque inverso: iludir o observador mostrando-lhe sempre a mesma coisa, e fazê-lo acreditar que são distintas. Como alguns escritores, que descrevem um mesmo acontecimento, narrado do ponto de vista de vários personagens. O acontecimento é um só, mas muda conforme mudam as pessoas que o vêem.

Acho que com a vida é igual. Com a minha, pelo menos, é. Às vezes, parece que nada muda, caio na rotina e nem me dou conta da mesmice, até acabo gostando do negócio, como naquela música onde todo dia tudo é sempre igual, o sorriso pontual, a espera no portão, o beijo com a boca de hortelã. Mas é só aparência. Reparando bem, nota-se que de vez em quando o sorriso fica meio nervoso, um caminhão estaciona na frente do portão, o gosto de hortelã se mistura com o de cebola, e aquilo que era imutável se mostra mutante.

Outras vezes, quando troco de namorada, de trabalho e de endereço, tudo parece diferente. Finalmente minha vida mudou!, exclamo ao abrir a janela da nova casa, fazendo boca para novos beijos. Aí, aos poucos e desconsoladamente, começo a perceber que a história é a mesma, a trama se repete, as grandes mudanças não passaram de meras adaptações no roteiro.

O problema é quando as mudanças me pegam de surpresa, e aquilo que eu acreditava estar sempre ali, ao alcance da mão, de repente vupt!, desaparece. O show “Falso Brilhante”, de Elis Regina, por exemplo. Ficou um ano em cartaz num teatro perto da minha casa. Todo dia, quando ia e voltava do trabalho, eu olhava pro cartaz que cobria a fachada do teatro e pensava: preciso comprar ingressos e assistir a esse show. Um belo dia o cartaz mudou e passou a anunciar uma peça teatral. Fiquei chupando o dedo, sem nunca ter visto Elis cantando ao vivo.

Por essas e outras, cheguei à conclusão que as coisas mudam sim, mesmo quando estão no mesmo lugar, todo dia, na mesma hora. Quem não muda sou eu, que não enxergo as mudanças e fico querendo que tudo mude, desde que fique do jeito que está. Ou melhor, do jeito que eu estou. O mais triste é que nem adianta fugir. Se eu for para um outro lugar, Patagônia ou Marte não importa, serei eu nesse novo lugar, e logo me sentirei no mesmo lugar de onde nunca saí – esse cruzamento monótono de avenidas sem rumo onde um entardecer se parece com o outro. Assim, vou ficando por aqui, até o dia em que, subitamente, não haverá mais avenidas, nem cruzamento, nem entardecer.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *