Consumismo

Enfim rico

Decidi ser rico. Não suporto mais essa vida de pobreza e escravidão. O simples ato de tomar essa decisão já me fortaleceu e iluminou. Fui invadido por uma paz interior. Quase sinto carinho pela humanidade. Percebi, finalmente, que meus grilhões não estão nos pés, e sim na cabeça. Serei rico e livre, como imagino que era há muito tempo atrás. Ou talvez nunca tenha sido.

Vou vender meus carros e meu apê com vista pro Ibirapuera. Cancelarei meus seguros, plano de saúde, cartão de crédito, telefones, TV a cabo, assinaturas de jornais e revistas, internet, conta bancária, academia. Apagarei meus perfis nas redes sociais. Jogarei fora o filtro Europa, o laptop, o celular, a impressora, o tablet, a balança eletrônica, o ipod, a tv digital, a máquina de nespresso, o home theater, a escova dental elétrica, o creme esfoliante. Manterei apenas o microondas e os aparelhos de som e DVD. Pro lixo meus dez pares de sapato, trinta gravatas, seis ternos, três casacos, vinte camisas e duas gavetas entupidas de camisetas. Demitirei a empregada, o personal training, o fisioterapeuta e o psicólogo.

Nunca mais ligações de telemarketing, nunca mais reuniões de condomínio, nunca mais horário no cabeleireiro, nunca mais cartões fidelidade, filas em supermercados, propagandas sob a porta. Nem IPVA, cadastros, IPTU, formulários. Adeus multas federais, estaduais e municipais. Pontuações na carteira e licenciamentos vencidos, adeus.

Liberto dessas misérias modernas, terei tempo e cabeça para as verdadeiras riquezas da vida. Vou me dedicar ao convívio com pessoas e ao debate de idéias. Almoçarei com amigos e jantarei com a família. Vou andar à pé pela cidade, visitar museus, assistir a filmes, concertos, teatros. Ler poesia. Tomar café e jogar conversa fora nas livrarias e botecos. Fazer feira com sacola de mão. Ler poesia. Conhecer lugares históricos. Sentar na sarjeta. Olhar as formigas. Ler poesia. Escrever cartas. Assinar um abaixo-assinado. Cantar num coral. Estudar as sabedorias da lentidão: perseverança, respeito e prudência. Ler poesia. Dobrar uma esquina por causa de um som ou uma borboleta amarela. Entrar numa manifestação de rua. Dividir o sanduiche com um viralata. Ler poesia. Abraçar, ouvir, sorrir, beijar. Consertar coisas quebradas. Ajudar a menina black bloc a se esconder. Ver a lua nascer e o sol se por –  em silêncio, lendo poesia.

Terei o mínimo de coisas, para desfrutar ao máximo da vida. Serei rico em felicidade e afetos reais, não em quantidade de amigos virtuais. Serei rico o suficiente para ir até a pequena chácara no Uruguai onde vive Pepe Mujica, e dizer ao ex-tupamaro: gracias, viejo, por mostrar que é possível chegar aos 80 anos sem trair a rebeldia, e que lutar continua sendo importante. E principalmente, por me fazer ver que pobre não é o que tem pouco, e sim o que necessita infinitamente muito, e deseja e deseja mais e mais.

3 respostas
  1. Vitor
    Vitor says:

    Cezar, cada vez mais a máxima “menos é mais” se reafirma para mim. Nós não sabemos o que queremos na vida. Estamos perdidos no mundo. Não paramos para pensar: “eu quero isso!”. A gente vai indo… Indo, vamos acumulando. É preciso outra máxima: “conhece-te a ti mesmo” para atingir o “menos é mais” da felicidade simples indo atrás do que realmente se quer.

    Semana passada um amigo me disse como estamos confundindo satisfação com felicidade. Para se satisfazer, você deve realizar um desejo. Para ser feliz basta ser feliz, é um estado de espírito, perspectiva de vida! Forte abraço!

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  2. Paola
    Paola says:

    A filósofa espanhola, Marina Garcés, aponta para descobrir um mundo comum no qual todos estamos envolvidos. Pensar não somente é elaborar teorias, mas é respirar, viver vivendo, ser sendo. Ela torce a deixar de contemplar o mundo visando reapreende-o, para atingir um “pensar” e um “olhar” impessoal, impróprio e aberto, mas sem perder a singularidade.
    Um ponto de partida para pensar como a gente constrói a vida, o cotidiano e as necessidades desnecessárias.

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