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Enredados

O Facebook tá virando coisa de velho. Nos últimos dois anos, nos EUA, o número de usuários entre 13 e 17 anos caiu 25%, enquanto o de velhos acima de 50 anos subiu mais de 80%. Antes, a rede era dominada (31%) por jovens entre 18 e 24 anos. Agora, mais de 30% são senhores e senhoras entre 35 e 54 anos. Mais do que envelhecer, o Face está a caminho da morte. Segundo pesquisas,  deverá perder 80% dos usuários até 2017, e depois desaparecer como o Orkut e o MySpace.

Faço parte do contingente de tiozinhos que entrou na rede nos últimos anos, e está contribuindo para afugentar a meninada. Também pertenço ao grupo de extermínio que vai abandonar de vez o canal, tão logo surja outra rede menos moralista e policialesca.

Se você usa o Face para postar frases de auto-ajuda, fotos de comida ou de pets, provavelmente nunca enfrentou a mão pesada do senhor Zuckerberg. Mas experimente postar uma foto do Davi, de Michelangelo, ou da Maja Desnuda, de Goya (nem vou falar da Origem do Mundo, de Courbet). O risco de censura e suspensão do seu perfil é enorme. Basta que qualquer debilóide o denuncie por conteúdo ofensivo ou pornográfico. E não adianta você argumentar que aquilo é arte. O Face não sabe o que é arte. Tenho um amigo fotógrafo que foi censurado e suspenso por causa de uma foto de indiozinhos nus jogando bola.

Alguns criticam também a invasão comercial do Face. Qualquer canal com milhões de pessoas na internet vai sempre atrair interesses comerciais. Faz parte do jogo. Mas tem que ter limites. Não suporto receber mensagens comerciais ou sugestões de curtir produtos e empresas em meu mural. Nem autorizo o uso dos meus dados e preferências pessoais por terceiros. E fico possesso ao ver aquelas propagandas oportunistas plantadas bem ao lado das setas da barra de rolagem, à espreita de cliques inadvertidos.

Meus chiliques, entretanto, são inúteis enquanto vigorar o AI-5 digital criado pelo então senador Eduardo Azeredo em 1999 (sim, ele mesmo, o ex-presidente do PSDB, criador do mensalão mineiro), que – em nome de uma falsa segurança – impõe censura, detenção e um sistema de vigilância na rede. Está em aprovação no Congresso uma nova legislação que irá regular a neutralidade, a privacidade, a retenção de dados, a função social da internet e a responsabilidade civil de usuários e provedores. Mas isso não é prioridade para nossos nobres legisladores. Nem a espionagem de Obama teve força para agilizar o processo.

Segundo analistas, os jovens estão debandando do Face porque seus pais, tios e avós invadiram o espaço e melaram a festa da galera – que está migrando em peso para o Twitter, o Instagram e o WhatsApp. Está certo, a moçada quer distância dos velhotes. Mas o problema geracional é uma questão menor, diante dos padrões medievais e ditatoriais que vigoram em nosso ciberespaço. De um lado, o Grande Irmão seguindo todos os meus passos. De outro, Torquemada censurando e punindo meus gestos.  Minha sensação ao entrar no Face não é a de entrar numa rede do futuro. É a de cair numa armadilha do passado.

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