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Errar humano era

Para mim, uma das coisas marcantes em “Fahrenheit 451” é quando, na parte final, as pessoas memorizam livros inteiros, guardando na cabeça o que estavam proibidas de ter em papel. Eu via nisso mais do que uma vitória contra a opressão. Era a garantia de que a memória poderia salvar-nos da barbárie, preservando a cultura e a arte num local (sempre quis escrever esta palavra) inexpugnável: nossas mentes. Ah, que conforto imaginar que para alimentar o espírito e a inteligência não precisaríamos de papel, nem de livros, nem de palavras impressas. Não precisaríamos de nada além de nós mesmos, suprema autonomia e liberdade. A única tecnologia necessária seria aquela que a natureza nos deu gratuitamente em forma de neurônios e sinapses.

Por isso fiquei estarrecido ao ler em “Para onde nos leva a tecnologia” (editora Bookman, 380 pgs.) de Kevin Kelly, que estamos transferindo nossa memória para a rede digital. O advogado não precisa mais saber em que artigo enquadrar um crime. O médico não precisa memorizar receitas, ou as causas de dores nas costas. Ninguém tem que saber inglês para descobrir que “Lolita, light of my life” é um belo exemplo de aliteração, e também a frase que abre o inesquecível livro de Nabokov. Minha mulher não precisa mais lembrar onde deixou os óculos. Basta que todo mundo tenha à mão um celular conectado à web.

E que os óculos tenham um chip, não é? – acrescentará você. Pois eles terão muito mais que um chip, ligadíssimo leitor. Na verdade, serão mais do que óculos – essa velharia inventada no século 1 (obrigado, Google). Já existem óculos que filmam e fotografam plugados na internet. Futuramente, seguindo as tendências dos softwares de tecnologias vestíveis, poderão ter localizadores espaciais, visão de raios X, infravermelho e sequenciadores de DNA que emitirão alertas sobre eventuais danos causados aos seus genes pela luz, poluição ou leitura de textos como este.

Essas profecias high-tech nunca me preocuparam. Sempre achei que não estaria vivo quando inventassem bonés captadores de pensamentos alheios. Mas a taxa de expansão tecnológica está acelerando velozmente: a eletricidade levou 75 anos para chegar a 90% dos americanos; o celular apenas 20. Logo haverá robôs humanóides trabalhando como economistas, psicólogos e geriatras; dando concertos musicais; filosofando e escrevendo poesia. É possível que no meu funeral, a missa seja rezada por um androide ecumênico.

Como cinquentão, sinto um prazer egoísta ao pensar que a memória não será tão valorizada, nem sinal de juventude e inteligência. Mas sinto calafrios ao imaginar os efeitos a longo prazo, onde engenhocas diabolicamente inteligentes poderão dominar sem esforço uma legião de humanos com cérebros atrofiados, incapazes de uma idéia brilhante com mais de dez volts. Sem falar nos erros e idiotices que as supermentes tecnológicas fatalmente irão cometer. Aliás, já estão cometendo. Ontem levei uma bronca federal por ter esquecido o aniversário de uma grande amiga. Falha do Facebook que não me lembrou, expliquei a ela. Safei-me fácil e suspirei aliviado: não é que ser um desmemoriado tem lá suas vantagens?

1 responder
  1. Dinesi
    Dinesi says:

    Ave Cezar,
    Penso que serão salvos dessa falta de uso do “cérebro natural” os analfabetos, pois para tudo podem contar somente com sua memória.
    Parabéns pelas brilhantes cronicas e criativas ilustrações.
    Abraços.

    Responder

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