Office Romance

Escritório

Ela se chamava Nanda e tinha cinqüenta anos. Voz grossa, pernas grossas, barriga tanquinho e peitos pequeninos. Olhar maroto e um delicioso sorriso malicioso. Gostava de praia, de coisas picantes e de uma boa gargalhada. Sempre de alto astral. Começou como secretária júnior, depois sênior, depois casou-se com um lindo comandante de Boeing e tiveram uma filha linda. Um dia o comandante morreu e ela criou sozinha a menina. Teve namorados dentro e fora do trabalho. Passou por vários departamentos. Agora trabalhava na contabilidade, vivia para a filha recém-formada e esperava a aposentadoria chegar.

Ele se chamava Ivo e tinha vinte anos. Alto, atlético, olhos grandes e ansiosos. Com boas relações na empresa, o pai conseguiu-lhe aquele bico prá ver se tomava juízo enquanto terminava os estudos. Talvez existisse uma namorada no meio da história, algo tinha acontecido, ninguém sabia ao certo. Gostava de baladas, som e carros. Deram-lhe a última mesa da quinta fileira, ao lado da parede. Na sua frente, a mesa de Nanda, e na frente dela, a mesa de seu Zé Garcia. Um de costas para o outro. Ou Nanda entre os dois.

Seu Zé Garcia era o mais calado de todos os funcionários. Viúvo, cunhado de um diretor, estava prestes a se aposentar. Falava baixo. Olhava baixo. Andava sempre de cabeça baixa. Parecia ter vergonha de respirar, da viuvez, de ser cunhado do diretor, de receber o holerite no fim do mês. Chegava pontualmente às 9h00 e punha o relógio de pulso sobre a mesa – sempre no mesmo e exato lugar. Às 18h00, nem mais nem menos, pegava o relógio, batia o cartão e ia embora.

Depois que Ivo chegou, seu Zé começou a ficar estranho. Deu prá resmungar baixinho e a coçar atrás da cabeça. Ninguém se preocupou com isso, mas todos notaram quando começou a erguer os olhos, ou melhor, a arregalar os olhos, como se pedisse ajuda, num completo desamparo. Alguns acharam que estava emagrecendo. Uma manhã, apareceu sem fazer a barba.

Rodinhas no café, gozações de futebol, cochichos sobre promoções e demissões. A vida seguia normal no escritório, até aquele dia. Às 9h04 chegou o malote de correspondências. Às 10h15 o chefe deu uma bronca geral pelo mau uso da nova impressora a laser. Às 11h53 ouviu-se a gargalhada de Nanda. Às 12h25 o chefe saiu pro almoço. Três minutos depois, o sereníssimo seu Zé bateu forte na mesa e virou-se para trás, pálido, olhos arregalados, voz trêmula e descontrolada: “Dá pra ele, Nanda! Pelo amor de Deus, dá pra ele! Eu não agüento mais essa história! Vai jantar com ele! Vai pra praia com ele! Vai dançar com ele! Vai passear no carro novo dele! Vai pra cama com ele, Nanda! Chega! Não consigo mais trabalhar! Estou ficando louco!”

O desespero do velho chocou mais do que o fato de Ivo querer e Nanda não querer. Durante alguns dias, enquanto os homens se solidarizavam com a fome do jovem, as amigas se desdobravam em conselhos para Nanda – que não arredava pé. O rapaz podia ser seu filho. Ela já gozara a vida e não ia se jogar em mais uma aventura nessa altura do campeonato. Como encarar a própria filha, dois anos mais velha que Ivo? Não. Definitivamente, não. Surgiram rugas em sua testa. A gargalhada saiu de férias. Passaram a conversar a sós nos corredores, na máquina de café, na padaria da esquina.

Numa segunda-feira, todos perceberam que – enfim – tinha acontecido. Talvez tenha sido num bangalô, talvez num quarto de hotel, com taças e bolero. Talvez tenha havido uma roupa de comandante de Boeing e uma cinta-liga jogada no tapete. O que se sabe é que o caso foi longo. Ela ensinou-lhe a discrição do amor no trabalho, ele mostrou-lhe que, na vida, o amor pode fazer hora extra.

Seu Zé Garcia morreu de câncer e mágoa. Ivo terminou a faculdade, voltou para o Interior e casou com a filha de um juiz. Nanda se aposentou e foi morar na praia. Hoje deve ter mais de oitenta anos. Se é que não morreu também.

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