Estatelados no relvado

Estatelados no relvado

Dorival Caymmi dizia que este mundo é cheio de maldade e ilusão. O velho baiano estava certíssimo, mas além de maldade e ilusão, acho que este mundo também é cheio de ironia. E o pior: a ironia quebra as ilusões com toques (requintes, às vezes) de maldade. É o que sentiu na pele o argentino Lionel Messi, ao ver o Prêmio Puskás de gol mais bonito do ano cair nos pés de Wendell Lira, um desconhecido atacante da terceira divisão tupiniquim, que ainda fez uma elegante troça com os golias europeus. Pobre Messi.

Outro argentino que sentiu a crueldade da ironia foi Jorge Luis Borges, que apesar de consagrado, morreu sem ganhar o prêmio Nobel de literatura. “Todos os anos o espero pacientemente, me iludo. E, embora saiba que não chegará, espero-o” – choramingava o portenho. Às vezes, usava ironia para combater a própria ironia: “A Academia Sueca inicialmente premiava escritores que eram mundialmente conhecidos. Agora mudou de modus operandi: dedica-se a descobrir valores. Não a reprovo, mas eu gostaria que me descobrissem”. Os queixumes de Borges nunca surtiram efeito. Também foram em vão seus esforços para livrar-se da cegueira, uma doença no mínimo irônica, quando ataca alguém que, como ele, amava os livros sobre todas as coisas. Pobre Borges.

Borges também gostava de cinema, arte que considerava superior à pintura e à música. A pintura opera no espaço, e a música no tempo; o cinema opera no tempo e no espaço, dizia ele. Ora, dirão os amantes do futebol, o esporte bretão também é uma arte superior, pois opera igualmente no tempo e no espaço. Tenho minhas dúvidas, mas confesso que um dos filmes que mais me emociona tem o futebol como pano de fundo. Refiro-me a “O milagre de Berna”, de 2003, dirigido por Sönke Wortmann, que narra os conflitos entre um pai e seu filho numa Alemanha destruída pela guerra e às voltas com a Copa do Mundo de 1954. A Hungria, capitaneada pelo lendário Puskás, era a maior potência futebolística daquela época, mas foi derrotada na final – de virada – pela desacreditada Alemanha: 3 x 2. Puskás marcou o primeiro gol da Hungria e ainda chegou a fazer um último – o que levaria o jogo para os pênaltis – mas estava impedido. Pobre Puskás.

O futebol é o esporte mais irônico da Terra. Cada partida é um festival de pequenas armadilhas que fazem a beleza e produzem a emoção do jogo. Nelson Rodrigues dizia que no futebol, a poesia está no frango. De fato, um goleiro pode salvar uma partida num lance e no instante seguinte botar tudo a perder. Num momento, um time está lá em cima; no outro, lá embaixo. O mesmo acontece com os jogadores. O caso do português Pavão (assim chamado não pela vaidade,mas por fintar seus adversários de braços abertos) é exemplar. Capitão do Porto, em 1973 ele estava no auge da forma e da fama, era considerado o sucessor de Bobby Charlton, a Europa se ajoelhava a seus pés. No dia 16 de dezembro (sempre dezembro!), o Porto disputava contra o Vitória de Setúbal a taça de campeão português, quando aos 13 minutos o país inteiro se quedou paralisado: Pavão “fez um passe para Oliveira e estatelou-se no relvado!” – gritou o locutor. O Porto ganhou por 2 x 0, mas seu capitão foi direto para o cemitério: enfarte fulminante. Pobre Pavão.

Não sei por que tanta gente insiste em ser irônica nas redes sociais, onde mesmo dizendo claramente as coisas já é difícil fazer-se entender, imagine dizendo o contrário do que se está realmente falando ou pensando. Aliás, a ideia de que uma rede planetária iria resolver a comunicação e o entendimento entre os homens, é outra ilusão destruída pela ironia: a rede está aí, e ninguém se entende. Ao contrário, os desentendimentos e a pancadaria aumentam a cada dia. Não tardará a hora em que, do auge da ilusão cibernética, cairemos todos estatelados no relvado da realidade. Pobres de nós.

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