Cacto

A estratégia do espinho

Admiro quem se mantém fiel a costumes. Gente que ao longo da vida conserva a mesma profissão, o mesmo hobbie, o mesmo corte de cabelo. Uma vez ouvi um velho escritor dizer que se orgulhava de sempre ter usado camisas brancas. Essa estabilidade me dá uma sensação de segurança e de firmeza. Parece-me uma espécie de honestidade, de fidelidade a princípios, de saber o que se quer da vida. Gosto de pessoas assim, mas nunca fui assim.

Vivo mudando de gostos, de jeitos, de afazeres. Já trabalhei como auxiliar de escritório, de almoxarifado, de geólogo. Fui professor de datilografia, bancário, jornalista, auditor. Aprendi a lidar com enxada e foice, a dirigir trator e cuidar de horta. Acreditei em Deus e em Seus filhos. Curti rock, música caipira e um pouco de jazz; mais tarde tive uma paixão fugaz por óperas e música clássica.

Gosto de pescar e tenho fotos que atestam a captura de dourados e pintados, mas estaria mentindo se dissesse que sou pescador. Colecionei maços de cigarro, bolinhas de gude e peões. Até hoje sei jogar peões e pegá-los com a mão. Não perdi a pontaria com estilingue e espingardas, e creio que – em caso de necessidade – ainda saberia derrubar com segurança uma peroba ou um ipê. E depois, lavrar seu tronco com o machado e colocá-lo em alguma cumeeira.

Essas lembranças me vem à cabeça nesta época do ano, quando todos falam em mudar e melhorar suas vidas. Também já pratiquei rituais de ano-novo, pendurei desejos em árvores e esperei ansioso por mudanças – que vieram, mas não eram exatamente aquelas que pedi. Por isso, apesar das constantes alterações em minha vida, não acredito mais em mudanças de ano-novo. Ao voltar da viagem de Natal, olhei as contas a pagar debaixo da porta e tive certeza que o ano velho continuava. Lembrei dos inúmeros compromissos e problemas que transferi para janeiro, como se a virada do ano fosse resolvê-los, e percebi que eles apenas se somaram a novos problemas. Lembrei-me, enfim, que nada mudaria e que no fundo não gosto de pessoas imutáveis, embora as admire.

Reconciliado com minha natureza instável, desempacotei o presente de Natal que ganhei de um amigo: um cabeça-de-frade, aquele cacto em forma de bola que dá uma única flor aureolada em cima, como tonsura num frade gorducho. Segui as instruções do meu amigo cactista e acomodei-o cuidadosamente num vaso. À noite, comecei a pesquisar sobre esses seres que apesar de viverem com pouca água e muito sol, são sensíveis, produzem flores belíssimas – e também não gostam de movimentos e mudanças.

Ontem fui a um hipermercado de plantas e comprei mais dois exemplares. Minha mulher olhou de soslaio. É para fazerem companhia ao fradinho, justifiquei, sentindo que ela sentia o surgimento de uma nova fase em minha vida. Ou nova mania, como ela diz.

O importante é que tenho algo novo para curtir nesse 2015 que promete muito calor e pouca água. Pode ser que os cactos sejam uma mania passageira, e em 2016 já tenham ido embora da minha vida. Nesse caso, deixarão saudades e pelo menos um ensinamento: a estratégia dos espinhos, que eles usam para se defender. E também para respirar.

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