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Férias

Calma, querido leitor, não estou – talvez infelizmente para você – saindo de férias. Como aposentado, além de perder salário, colegas, vale-refeição, desafios, coffee breaks e plano de saúde, perdi também o direito às férias. Ora, você dirá, aposentado tem férias eternas. Não é a mesma coisa. Nada que é eterno é bom. Nem orgasmo, ou torresmo todo dia.

A magia das férias está na sua escassez, nas possibilidades que se abrem, no sabor do novo renovado. Alguns as planejam com grande antecedência. Outros deixam tudo para a última hora. Conheço gente que aproveita pra meditar e gente que cai na esbórnia até o último segundo de ócio. Tem os que investem em cursos e estudos, e aqueles que preferem cuidar da saúde.

Não existe receita nem regra. Há pessoas que não se desligam do trabalho, enquanto outras esquecem até o endereço do serviço. No meu caso, aprendi a fazer uma lista com todas as coisas que precisaria lembrar no retorno (inclusive a senha do computador). Com a cabeça livre das tarefas e compromissos, guardava o papel na gaveta e entrava no merecido gozo do dolce far niente.

Nem sempre, porém, a coisa dá certo. Uma vez, com viagem marcada para o Piauí, levantei cedo, tomei um banho, ergui os braços preguiçosamente e soltei com alivio: “férias!”. Senti uma ferroada nas costas. Algo em mim parecia não gostar de folgas. Era um músculo chamado trapézio, que resolveu manifestar seu desagrado. Fiz-lhe um cafuné rápido e fui para o aeroporto, carregado de mochilas e sacolas. Vôo cheio de escalas, seis horas de ar condicionado gelado no lombo, desembarquei em Teresina com a ajuda de um aeromoço. Subindo no trapézio, a dor tinha pulado para a nuca e saltado para o ombro. Após três dias de sofrimentos e ungüentos, meu cunhado – embalado por meia dúzia de cubas libres – resolveu destravar a questão dando-me um tranco “infalível” nos ossos. Saí do tranco direto para o hospital, onde enfim descansei.

Férias de um mês como temos no Brasil são um patrimônio nacional. No Japão, começa-se com direito a uma semana e só depois de dez anos de trabalho conquista-se os trinta dias. Na Argentina o sistema é parecido. Por aqui, como em tudo o que é patrimônio nacional, existem alguns abusos. Até 2006, por exemplo, nossos deputados federais tinham 90 dias de férias. Atualmente, folgam só 55 dias por ano.

No poder executivo, feriar não é pecado mas há sempre o risco político de uma tragédia enquanto o governante passeia. Acho deprimente os descansos dos Presidentes da República, trancados naquelas bases militares da Marinha, longe de tudo e de todos. Jamais esquecerei uma foto do Lula de calção, no meio do mato, com uma caixa de isopor de cervejas nas costas, resfolegando atrás de dona Marisa.

Admiro quem gasta suas férias em estudos e retiros espirituais, mas gosto mesmo é de passear, ver gente e lugares novos, ou rever amigos e parentes distantes e queridos. O importante, no fundo, é estar disposto a curtir o que vier, porque nem sempre o planejado ou esperado acontece. Parece papo da Danuza Leão, mas falo por experiência própria. Embora goste um pouco de agito, minhas melhores férias foram bastante calmas. Tínhamos decidido, minha mulher e eu, ficar os primeiros dias em casa para organizar algumas coisas; depois pegaríamos o carro e sairíamos por aí, buscando casas de amigos e outros lugares bons e baratos onde ficar.

No terceiro dia, entretanto, nossa cachorrinha foi atropelada e fraturou seriamente a bacia. A recuperação exigia repouso absoluto e cuidados constantes. Cachorro com dor morde o próprio dono, por isso sequer a pegávamos no colo. Para levá-la ao banheiro, usávamos um pano sob sua barriga, como cegonhas levando bebês. Quando um saía, o outro ficava velando a enferma. Revezávamo-nos na aplicação dos medicamentos e na alimentação. Passamos vinte dias em casa, cuidando do animal, cozinhando, vendo filmes, rindo de nós e dos outros, lendo, ouvindo música e fazendo sexo. Não discutimos – nem por um minuto – a relação. Hoje nossa cachorra leva uma vida normal. Apenas não consegue saltar. E quando ela senta, a perna traseira esquerda fica meio torta lembrando-nos daquelas férias inesquecíveis, 12 anos atrás.

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