Cerejeira vulcão

O efêmero que nos fere

Na última crônica reclamei da falta de assunto, sem prestar muita atenção ao calendário. Então, de repente, de novo é agosto. O mundo parece voltar das férias, cheio de gás, fazendo tudo acontecer ao mesmo tempo. Nas últimas semanas, o departamento da morte levou Robin Williams, Eduardo Campos e Nicolau Sevcenko – um dos mais brilhantes historiadores brasileiros. O departamento da memória está celebrando vários números redondos de mortes ou nascimentos ilustres, como os de Aracy de Almeida, Cortázar, Raul Seixas, Getúlio, Paulo Leminski, e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O Palmeiras também faz 100 anos, mas a festa está ameaçada pelo departamento de artes, seção de teatro, que pressiona para emplacar mais uma tragicomédia pra cima do meu querido Verdão.

O departamento da vida colocou diversos novos gênios no mundo, descobriremos no futuro, quando realizarem suas obras benignas ou malignas, como fizeram Calígula, Colombo, Aleijadinho, Napoleão, Hegel, Krupp, Hitchcock, Borges, Oscarito, Cantinflas e outros famosos nascidos em agosto.

Ora, dirá você, leitor que não nasceu nem morrerá em agosto, isso é papo de cronista, este é um mês como qualquer outro. Pode ser. Não discuto com leitores – que por sua vez também pouco discutem comigo. Mas para mim, é um período especial.

Nesta época, sinto mais aquilo que os filósofos chamam de impermanência, e os japoneses tratam como flor da cerejeira. Nunca me detive muito na impermanência, e geralmente piso em flores distraído, sejam ou não de cerejeira. Entretanto, em agosto fico mais sensível a essas coisas, como se estivesse grávido, ou à beira da morte. Fico relembrando pequenos gestos, pequenos olhares, pequenos risos que significaram muito, mas duraram tão pouco que não fui capaz de pegá-los. Pequenos momentos mágicos, porém tão rápidos que não consegui vivê-los.

Gostaria de voltar no tempo, ter uma segunda chance. Fazer a jura secreta. Esticar a mão. Dar o abraço. Aquele tapinha nas costas. O aceno de cabeça. Aproveitaria para consertar também pequenos gestos desastrosos, palavras infelizes que – num milisegundo – transformaram instantes de pura felicidade em sofrimento atroz. Como aquela linda e alegre namorada adolescente, para sempre magoada, que reencontro na internet, solitária, religiosa, entristecida, com os olhos ainda doces, o sorriso ainda meigo, a expressão ainda suave como flor de cerejeira. Flor que, em vez de cheirar e beijar, lancei ao chão com desdém. Não tenho coragem de pedir-lhe perdão. Tampouco consigo perdoar-me. Os danos ao coração não tem remédio.

Volto ao presente e, mesmo que ainda seja agosto, faço um esforço para viver o aqui e agora. Esse efêmero que nos fere, segundo Paulo Mendes Campos. Ficar atento às coisinhas sublimes da vida, não deixar que outros instantes de brilho fugaz me voem das mãos, como vagalumes. E principalmente, não pisar nas delicadas flores de cerejeira, que brotam fugazes em setembro e caem abundantes em meu caminho. Um segundo de descuido, e elas se tornam eternas. Dolorosamente eternas.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *