Carnaval_serpentina

Foliões

João é caixa de banco e quase ficou de fora do carnaval. Maria pegou barriga e ele teve que usar o dinheiro do abadá pra pagar o aborto. As economias foram pro ralo junto com o filho feto. Depois, o agiota negou fogo, por causa da suadeira que levou no último empréstimo. Os amigos, todos lisos. Então ele escolheu a conta de um idoso solitário e falsificou a assinatura num cheque avulso. Pegou um pouco além do abadá: na quarta-feira, assim que chegar da folia, vai comprar um celular novinho pra Maria. Ela anda triste, coitada, depois que tirou a criança.

Valéria, 38 anos, casada, dois filhos pequenos, é executiva financeira em São Paulo. Todo fevereiro, ela tira dez dias de férias e vai desfilar no Rio. O marido não gosta de carnaval e fica em casa, cuidando das crianças. O acordo foi feito quando casaram, e até hoje vem dando certo. Ele aproveita para visitar antigas amizades. Ela volta com muita fome, depois das noites de folia.

Em 1977, um grupo de argentinos escondidos no Brasil recebeu convites para o desfile de escolas de samba. Não conheciam o carnaval. Na primeira noite, uma das moças chorou muito, ao ver a multidão de alienados pulando alegremente – enquanto no subsolo do país o pau comia entre a repressão e a esquerda armada. Ela olhava as mulatas deslumbrantes, e chorava. As mulatas eram deslumbrantes sem fitness nem silicone – ela recordaria muitos anos depois. Na segunda noite, não chorou. No finzinho, tomou dois uísques e ensaiou uns passos e requebros.  Na terceira noite,  achava o carnaval uma legítima manifestação da cultura popular, muito parecida com a murga de sua terra. Sentiu saudades do seu povo. Virou cinco uísques, ergueu os braços, sambou descalça e tomou seu primeiro banho de mar nua. Acordou com a cara na areia, abraçada a um sonho de carnaval de cabelos pretos encaracoladíssimos.

Abelardo era o rei dos mestre-salas. Elegante, olhos doces, sorriso franco, inigualável nos meneios, nos giros, nas meias-voltas. Suas mesuras e torneados arrancavam gritos e aplausos da multidão. Ninguém o superava na cortesia à sua porta-bandeira e na proteção ao pavilhão da escola. Uma TV espanhola chamou-o de Antonio Gades dos trópicos. Durante anos, sua leveza e graça receberam notas máximas, e ele frequentou, junto com sua dama, as capas das maiores revistas e jornais do país. A dama de sua devoção era Eunice, mulatinha esguia de olhos puxados e sorriso de cinema. Em plena avenida, ofegantes e ovacionados, gostavam de se olhar nos olhos e pensar nas evoluções de amor que fariam depois do desfile. Tudo foi muito rápido, naquela noite. Aconteceu num movimento simples, uma mesura banal. Quando vinha em direção ao peito, o chapéu escapou-lhe da mão.  Para evitar que caísse no asfalto, ele esticou demais o braço e rompeu o ombro do paletó. A avenida silenciou. O enredo continuou –  a bateria a mil, o puxador rouco – mas a escola evoluía sem som. Uma coisa assombrosa. A imprensa deu grande destaque. Muitos anos depois, um poeta da velha guarda registrou num samba: “Abelardo fracassou / seu chapéu caiu na linha / seu terno melhor rasgou / seu chapéu caiu na linha / seu terno melhor rasgou / ai…”

2 respostas
  1. Dinesi
    Dinesi says:

    Porquê não a letra toda….

    Portela Desde Que Eu Nasci

    Eu sou Portela
    Desde os tempos de criança
    Ainda guardo na lembrança
    Algo e vou revelar
    Me lembro o Paulo quando sorrindo dizia
    Ao sambista que surgia
    O segredo e o seu modo de cantar
    Ficava alegre quando ouvia o entoar de um hino
    Lá vem Rufino, novidades ele vem apresentar
    Abriu-se o pano surge o mano Caetano
    Abelardo fracassou
    Seu chapéu caiu na linha
    Seu terno melhor rasgou
    Seu chapéu caiu na linha
    Seu terno melhor rasgou

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