Paulo_Leminski_(1985)

Freguês distinto

Uma boa biografia depende de duas coisas. A primeira é um bom biógrafo, que saiba pesquisar e escrever. Uma biografia bem contada enriquece nossa visão sobre a arte, a ciência, a história, a espécie humana. Garrincha, por exemplo, não é muito diferente de outros garotos pobres que ganharam fama e dinheiro com o futebol, e depois perderam tudo. Mas seu biógrafo Ruy Castro, num texto saboroso, conta como funcionava a indústria do futebol nos anos 50 e 60, os interesses políticos e econômicos em jogo, a imprensa, a cultura, os costumes da época. E também a história do gênio improvável, do bailarino disforme, do menino com alma de passarinho, do homem de Pau Grande, mulherengo, alcoólatra, que teve a carreira e a vida destruídas e morreu sozinho, sujo e sofrido como todo doente terminal de alcoolismo. Ao final, admiramos ainda mais o anjo torto e belo, humano e divino, que foi Mané – a alegria do povo.

Em segundo lugar, uma boa biografia requer liberdade de expressão, um direito que (ao contrário do que pensam os barões da mídia) não é absoluto e deve ser exercido dentro de limites jurídicos. Uma biografia livre nunca irá agradar plenamente ao biografado. Mas quem quiser histórias perfeitas sobre si, que as escreva. Incorreções, falhas de interpretação, virtudes e vícios exagerados ou atenuados, são riscos inerentes ao biografar. Julgar se comprometem ou não o resultado é tarefa dos leitores e da crítica – não de familiares e advogados. Uma biografia deve ligar vida e obra do biografado, enriquecendo a compreensão de ambas. Em casos de abuso a lei pode e deve ser acionada. Mas não pode tirar a obra do mercado, até o julgamento final. O livro de Garrincha ficou anos retido e foi liberado após acordo financeiro, sem ter uma letra alterada. Se tivesse continuado em circulação, o desfecho talvez fosse mais breve e menos custoso.

Temos muito que evoluir. Na biografia da biografia brasileira, eu descreveria assim nosso momento atual: normas policialescas e pseudo-moralistas. Censura prévia e proibições sob qualquer pretexto, geralmente visando ganho de dinheiro. Criminosos, corruptos e poderosos com garantia legal da sua boa imagem. Carência de bons profissionais e muitas obras laudatórias, publicitárias ou meros oportunismos financeiros. Público leitor incipiente. Reflexos de uma sociedade imatura culturalmente, e ainda tutelada por uma elite ignorante, provinciana e truculenta.

Juro que não compreendo como um grupo esclarecido como o Procure Saber pode defender a lei atual. Ou agir como Alice Ruiz que – por achar exageradas as menções ao alcoolismo e ao estoicismo do marido – desautorizou “Passeando por Paulo Leminski” de Domingos Pellegrini, o texto mais belo, criativo, amoroso e realista já escrito sobre o genial polaco. O pior, como nota Pellegrini, é que Leminski construiu deliberadamente uma imagem de maldito underground. E seu público gosta disso. Apresentá-lo como bom moço é violar a honra beatnik inerente à sua vida e obra. Num gesto ousado, Pellegrini distribuiu o livro por email e permitiu sua reprodução. O Polaco certamente brindou feliz com uma golada de vodca: “eu nunca quis ser freguês distinto, pedindo isso e aquilo, vinho tinto, obrigado, hasta la vista”. Depois, num longo suspiro, enkarando seu karma: “(…) sigo na noite o destino: ser aquilo que a sombra quis para noivo”. Por fim, mais uma golada e um olhar debochado pro pessoal do piquenique: “pra que cara feia? na vida ninguém paga meia”. Bom domingo.

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