Fogo na globo

GRANDE PEQUENA MÍDIA – foto: SelvaSP

Curti a autobiografia de Felipe Neto, o brasileiro mais famoso da internet. Aos 27 anos, ele já construiu um império: controla metade do Youtube brasileiro, e seus vídeos estão entre os mais acessados do mundo. A genialidade do rapaz atraiu gigantes norte-americanos. Fiquei morrendo de inveja. Pensei em virar um webstar, mas decidi continuar em jornais impressos. Aqui sou mais lido (espero) do que na internet. Lá tem muita liberdade, mas ninguém lê texto. A galera gosta mesmo é de fotos e vídeos. Num jornal, se você tem editores sensíveis e audaciosos como os meus, também é possível dizer coisas como na net.

Posso falar palavrões, por exemplo. Sei que termos chulos – mesmo aqueles usados na linguagem cotidiana, como merda ou caralho – adquirem uma força adicional quando escritos com todas as letras. Mas há sentidos que só eles conseguem expressar. Embucetar, por exemplo, significa que algo ficou tão complicado que não há solução aparente. Tente achar outro verbo para dizer isso. Se encontrar, me diga.

Também posso descer a lenha na grande mídia. Desde os protestos de junho, estou com uns gritos entalados na garganta. Segurei-os porque as próprias manifestações combateram as coberturas tendenciosas e preconceituosas. Lembram do vexame do Jabor? Segundo Mino Carta, nosso jornalismo é o pior do mundo. Mas se acha o melhor, acrescento. Só seremos um país sério quando jornalistas pagarem por seus crimes de imprensa. E quando deixarmos de ser reféns das quatro famílias que dominam a informação nacional. Minha pouca inteligência se sente ultrajada toda vez que abro um jornalão, vejo uma revistinha ou ligo a TV. Não é estranho uma mídia que se acha acima do bem e do mal? E isso no Brasil, onde o mal é tão banal? Na capacidade de manipular fatos, o Grande Irmão orwelliano era um ingênuo perto da grande imprensa tupiniquim.

Voltei a sentir coceiras na garganta com o noticiário sobre a importação de médicos. Quanta parcialidade, quanta mentira, quanto preconceito! Tudo para atacar um programa que pode render votos ao governo. E o povão que se lasque. FHC foi o primeiro presidente a trazer médicos cubanos para o Brasil, sob os aplausos da mídia “apartidária”. Sinto engulhos quando penso nisso.

Apesar de tudo, acho que o Brasil está mostrando mais a sua cara. Estamos percebendo que somos bonitinhos, mas ordinários. O reino da mentira e do fingimento. Achamos feio falar palavrão, mas deitamos e rolamos no sexo. Dizemos não ter preconceitos, e somos um dos paises mais injustos do mundo. Defendemos a vida de ursinhos panda na China, mas não a de crianças abandonadas em nossas ruas. Somos autoritários, mas posamos de democratas. Pregamos o politicamente correto e praticamos o moralmente incorreto. Pareceu-me que o desmascaramento de comportamentos hipócritas era um dos focos dos protestos de junho. E continua forte, na pauta dos novos comunicadores da internet. Se estivesse no Youtube, eu diria: demorou, porra!

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