Autoestima

Imagens

De todas as imagens de refugiados invadindo a Europa, a que mais me tocou não foi a do menino morto na praia. Foi aquela de um pai agarrado aos dois filhos, chorando, os olhos arregalados de desespero e pavor. Um homem forte, robusto, aparentemente indomável, capaz de arrancar do solo uma árvore com raiz e tudo, reduzido a uma máscara de fragilidade, impotência e medo. Impossível dizer se abraçava os filhos para protegê-los, ou para proteger-se. Provavelmente as duas coisas.

Outra imagem marcante foi a de uma cinegrafista húngara agredindo refugiados. Uma mulher alta, bonita, de fartos peitos, chutando crianças e dando rasteiras em miseráveis esfomeados e insones – e depois se vangloriando com uma saudação nazista em sua rede social. Internautas brasileiros aplaudiram a moça, dizendo que se os imigrantes nordestinos tivessem sido repelidos assim, não teriam destruído uma cidade linda e boa de se viver como São Paulo. Fiquei pensando que papel teriam a cinegrafista e nossos internautas neste mundo dominado pelo egoísmo e preconceito: criadores ou criaturas? As duas coisas, provavelmente.

A terceira imagem que me embrulhou o estômago (esta é a última, prometo), foi a dos barqueiros mercenários que – a 1.500 euros por cabeça – transportam 50 pessoas em botes infláveis com capacidade para apenas 10, embolsando 75 mil euros numa só viagem. Estava a ponto de enterrar de vez minha fé na humanidade, quando vi as populações dos países invadidos começarem a se mobilizar e a dar acolhimento aos refugiados, passando por cima de restrições e bloqueios impostos por seus governantes.

Essas imagens parecem estrangeiras e distantes, mas aqui no Brasil, diariamente, acontecem situações como essas. Ora é uma criança com a cabeça estourada pelo tiro de um policial, ora são pais jogados na rua em desespero, despejados de imóveis e terrenos ociosos; outra hora é um garotão sarado que agride um cadeirante por usar camiseta vermelha, ou um grupo de rapazes bem vestidos que resolve atear fogo a mendigos adormecidos. Também somos pródigos em traficantes de mão-de-obra escrava, protegidos por políticos latifundiários. Sim, também produzimos pessoas capazes de se indignar e lutar contra tudo isso, mas em escala muito menor.

Algo me diz que apesar dessas mazelas nacionais, iremos acolher muito bem os refugiados que vierem para cá. O mundo estará olhando, e gostamos de fazer bonito para o mundo. Gostamos de exibir nossa imagem de povo alegre, hospitaleiro e multi-racial. Somos capazes de repudiar o racismo contra um negro estrangeiro famoso, sem deixar de maltratar a empregada, o porteiro, ou qualquer negrinho anônimo que não saiba o seu lugar.

Quanto à mim, confesso que senti um certo conforto ao ver críticas aos mercenários barqueiros turcos, e elogios aos altruístas europeus. Prontamente aliei-me à fileira dos bons, porque também gosto de pensar que sou generoso e solidário. Mas no fundo, por trás da minha auto-imagem, não sei a qual dessas duas espécies de gente pertenço. Talvez a ambas. Tudo depende da necessidade, da oportunidade e da recompensa. E de quem estiver olhando.

 

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