Corvos-van-gogh

Imagina depois da Copa

Faltavam cinco horas para Brasil x Croácia quando comecei esta crônica, dizendo que estava dividido entre olhar o noticiário e escrever. Um noticiário manipulador, enervante, onde até a cornetinha de um viking virava gancho para ataques ao governo. Não era exagero. Tinha acabado de ler que Joaquim “O Supremo” Barbosa iria assistir o jogo inaugural ao lado de Dilma, mas isso não era uma notícia. Era um mero pretexto para me enfiar goela abaixo um quilo de matérias velhas sobre o mensalão e as performances teatrais do substituto de Demóstenes Torres no papel de paladino da moral e da justiça.

Concentrado no esporte, eu dizia que adoro o momento pré-jogo na Copa. O silêncio cortado por vuvuzelas solitárias. O silêncio maciço que precede as grandes batalhas, rasgado pelo guincho estridente de um falcão, um gavião-carijó, ou o relincho nervoso de um cavalo. Já passei por 14 Copas. O silêncio é a lembrança mais forte que tenho de todas elas.

Outra lembrança: a ansiedade pelo desfecho. Vitória ou derrota? (Empate conta como derrota). Vitória sofrida? Derrota heróica? Um a zero? Três a dois, de virada? Minha cabeça era um balcão de apostas. Então, o jogo começou.

Agora escrevo logo depois do apito final, e a euforia da vitória me faz lembrar de um curtametragem israelense (acho). Dois soldados encontram dois soldados inimigos numa fronteira demarcada por uma tela de arame. Os quatro interrompem a rivalidade para ouvir a narração de um jogo de futebol, que sai do radinho de pilha no bolso de um deles. Ronaldinho joga e está num dia inspirado. Seus lances empolgam o narrador, e fazem brotar discretos sorrisos nos soldados. De repente, gol. Na vibração, um deles dispara acidentalmente o fuzil e mata um inimigo do outro lado do arame. Os três restantes se olham, atônitos, e começam uma fuzilaria sem sobreviventes.

Antes do jogo, eu tinha certeza que o futebol iria suspender nossas hostilidades domésticas, assim como interrompeu a guerra entre aqueles quatro soldados. Iniciada a Copa, abaixaríamos nossos fuzis e levantaríamos nossas bandeirinhas. De fato, isso aconteceu. Mas bastou um gol de pênalti acidental para recomeçar o tiroteio contra a seleção, contra a Copa, contra o futebol.

Nas redes sociais, no noticiário eletrônico, denuncia-se o “roubo” contra os croatas, a corrupção da cartolagem, o conluio para evitar o “fiasco” do Brasil. Quanta baboseira. Não vi roubo algum. Vi um pênalti legítimo em Fred – impedido de chutar por uma agarradinha do zagueiro – convertido por Neymar. Mesmo sem esse gol, nossa vitória foi digna da abertura de um Mundial. Não só pelos dois gols geniais, à brasileira, saídos do improvável, mas pelo domínio da partida.

Tenho certeza que o futebol acabará impondo sua “pax ludopédia”. Não temos o maior time de todos os tempos, mas temos alguns craques experientes e vários moleques irreverentes e brilhantes, conduzidos por um técnico competente e paizão amoroso. Na estréia, mostraram ter brios, capacidade de superação e consciência do seu valor. Tudo indica que vão crescer nas disputas e chegar como homens ao final do torneio. Algo me diz que esse Mundial promete. Os corvos já começam a crocitar. Imagina depois da Copa.

1 responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *