face sem rosto

Imagine

Imagine um dia normal, dia de sol, festa de luz, você está saindo do dentista, da igreja, da padaria, quando uma turba enfurecida fecha-lhe a passagem com paus, pedras, punhos, olhos vermelhos, aos gritos de pega!, esfola!, mata!, e tudo é tão rápido que quando pensa em correr você já está rodeado por todos os lados, igualzinho aqueles pesadelos onde você sabe que está num pesadelo, só que não é pesadelo a primeira paulada em seu rosto, nem a segunda, nem a terceira, tampouco são de sonho as mãos que agarram seus cabelos, torcem seus braços, rasgam suas roupas, ou os pés que chutam suas pernas, seu estômago, sua boca, sua cabeça já caída na rua, uma rua real como o sangue que cega seus olhos, entope seu nariz, sufoca sua garganta, impede seus pensamentos, sua voz, só não impede o ouvido de ouvir os gritos, os xingamentos, o som seco das pancadas, tuf!, das pedras, tuf!, dos ossos se quebrando, e bem ao longe, como um sonho dentro do sonho, alguns pedidos de chega!, já deu!, vozes distantes falando pelo-amor-de-deus acendem no seu peito uma esperança irreal, uma vontade tremenda de levantar-se e correr de volta prá dentro da padaria, da igreja, do dentista, da realidade, imagine, a ilusão de escapar, de fugir, de chegar alguém, um amigo, um conhecido, a polícia que seja, ou então um médico, alguém que saiba que esse cheiro de urina e merda é natural em situações extremas, você viu na TV o que acontece com animais, mas você não é animal, você quer entender, saber porque, e por que você?, por que justamente você?, a pergunta gira dentro da sua cabeça, sua cabeça gira no corpo, seu corpo gira na multidão, a multidão gira, rosna, grita, morde, rasga como cardume de piranhas, como matilha de lobos, como correição de saúvas, como um organismo único que às vezes parece acalmar-se, aí você tenta falar algo, tenta erguer-se do chão, mas o organismo volta a se mexer agressivo, retorce os dentes, a pancadaria recomeça, agora sem dor, sem vozes, sem ruído algum, parece que sua alma saiu do corpo e está assistindo tudo, mas não é sua alma, porque você ainda consegue sentir cheiro, um cheiro ruim, uma catinga de medo, suor, ódio, e sangue que agora se mistura com cuspe e forma uma baba grossa que escorre pelo nariz, vaza pela boca, desce gosmenta pela garganta, sangue muito mais grosso e quente do que aquele de dente arrancado, de topada no nariz, um sangue salgado, igual água do mar, bate uma vontade imensa de beber água, você tenta pedir água mas a voz não sai, nada sai de dentro de você, o mundo ficou lá fora, tudo virou um delírio lá fora, você vê seu corpo flutuando bem devagar ao lado de uma bíblia, de um saquinho de pão quente, de uma TV fora do ar, da conta de luz, do smartphone do seu filho, de uma muda de gerânios, do diploma da faculdade, do gato se lambendo ao sol, do sol que apita como sirene de ambulância, de uma ambulância que apaga e acende seus faróis, de uns faróis que apagam e acendem atrás de um rosto, de um rosto que pergunta quantos dedos você vê, imagine, um rosto, imagine, uma pergunta, imagine um rosto que pergunta, imagine quantos você você vê.

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