Fusca patagonia

Males e bens

Semana passada minha filha foi demitida de uma clínica terapêutica por chegar atrasada e fazer um cliente esperar dez minutos. Calma, eu disse a ela tentando amenizar seu desespero, sorte ou azar espere ver no que vai dar. Falei por falar, reação automática de pai evitando o sofrimento de um filho, típica destes tempos modernos em que só o prazer constrói. Pois não deu outra: o cliente ligou, disse que achava a demissão um absurdo, e acertaram um atendimento domiciliar pelo triplo do valor que ela recebia na clínica.

Lembrei do caso de um advogado que teve seu escritório destruído por um incêndio quando ele era jovem, iniciante e sem dinheiro. O rapaz mergulhou na tragédia. Sua promissora carreira tinha virado fumaça, junto com os processos e a papelada dos clientes. Um outro advogado, viúvo e sem filhos, já velho e muito rico, dono de um grande escritório, apiedou-se dele e ofereceu-lhe como tábua de salvação uma mesa, máquina de escrever e telefone para trabalhar. Aos poucos nasceu uma forte afeição entre os dois, e ao morrer o velho deixou para o jovem seu luxuoso escritório – e também sua valiosíssima carteira de grandes clientes.

Por essas e outras o ditado “há males que vêm para o bem” é conhecido no mundo todo. “No hay mal que para el bien no venga”, dizem os espanhóis. “Every cloud has a silver line”, declamam os ingleses. “Non tutto il male vien per nuocere”, filosofam os italianos. “À quelque chose malheur est bon”, resmungam os franceses. E não há língua que o Google não fale, arremato eu.

Porém, o que nenhuma língua diz é que o dito contrário também é verdadeiro, ou seja, há bens que vem para o mal. Foi o que aconteceu com meu amigo Gilmar e seu sonho do carro próprio. Ele falava nisso todo dia. Racionalizava o desejo dizendo que sua vida ia melhorar, que iria chegar mais rápido no trabalho, que poderia levar a família à praia no domingo, que no fim das contas um carro era um patrimônio – o seu primeiro e único patrimônio. Naquela época Jesus não dava carros de presente, e Gilmar ralou muito até conseguir comprar um fusquinha 69 com oito anos de uso. Mas sua alegria não durou um mês. O carrinho era marrento e nunca acordava de manhã. Quando o motor pegava, o farol apagava, o óleo vazava, a maçaneta da porta caía. Ou então, invariavelmente, o platinado queimava. Depois começaram a chegar as multas. Depois roubaram o estepe. Depois Gilmar bateu num carro, e um carro bateu em Gilmar. O martírio durou uns seis meses, até o domingão em que o fusca pifou numa curva da estrada de Santos, e a família ficou sentada à beira do caminho, o sol na cabeça, ouvindo o radinho de pilha durante horas.

Penso nessas coisas, e fico ruminando. A crise na Grécia vai ser um bem ou um mal para os gregos? E para os europeus? A vitória de Dilma nas urnas está virando derrota no tapetão. O impeachment – se vier – será bom ou ruim para os mais pobres? E para os mais ricos? Descobrir vida inteligente fora da Terra será algo benéfico ou maléfico? Encontrar um novo amor vai transformar minha vida num paraíso ou num inferno?

A verdade é que estou virando um sujeito muito ressabiado. Cada vez duvido mais das coisas, dos homens e das suas criações. As únicas vitórias que celebro são as do Palmeiras (graças a Deus cada vez mais frequentes). Mas continuo sem jogar na loteria. Vai que fico rico e sofro um latrocínio na esquina.

1 responder
  1. antonio carlos
    antonio carlos says:

    Maravilha. Com o ruidoso andar da política passei a jogar perguntas ao ar – nos moldes das interrogações descritas nesta crônica – sobre o futuro do país e até da Grécia.

    Responder

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