Colar cervical

Margarida

Primeiro chegou a carteira com encosto e tampão diferentes, de madeira mesmo, só que bem mais altos. Puseram no primeiro lugar da fileira que ficava encostada nas janelas. Ninguém podia sentar. É do aluno novo, falaram. Problema nas costas, segredou o professor de química. Um aleijado, previu o Vacabrava. A carteira ficou um tempão lá, acho que semanas, vazia que nem trono.

Quando ninguém mais tava nem aí, ele chegou trazido pela diretora. Veio andando, mas andava duro, o pescoço preso num colar de gesso que não deixava abaixar nem virar a cabeça. A diretora falou que o nome dele era Lúcio, que tinha feito uma operação e ia ficar daquele jeito por uns tempos. Ele sentou na cadeira bem devagar, se ajeitou, pôs um livro no tampão, esticou os braços pra frente, depois prá baixo, virou o corpo prá diretora e falou tudo bem, a carteira tava aprovada. Ele não falou nada prá nós e não olhou prá ninguém, mas todo mundo ficou olhando prá ele e olhando um pro outro e cochichando adoidado.

Acho que o problema era os olhos dele. Eram verdes, bem verdes, às vezes mais claros, às vezes mais escuros, e fuzilavam quando ele ficava bravo. Ou foi o olhar de cima, com o pescoço esticado. O jeito de falar também não ajudava: a voz era grossa mas ele falava de soquinho e meio mandão, que nem a professora de matemática. Prá piorar, enturmou com as meninas, que ficaram todas loucas com aqueles olhos dele e protegiam ele como se estivesse dodói.

Começou no recreio. Margarida, o Betão falou. Margarida, o Vacabrava repetiu. Mar-ga-ri-da, Mar-ga-ri-da, todo mundo berrou e riu muito. O apelido nunca mais saiu. Uma vez o Betão foi surrupiar um caderno dele e levou uma reguada na mão que não foi mole. O Betão quis tomar na marra, mas ele segurou o caderno com tanta força e faiscou o olho verde de um jeito que o Betão recuou. Noutra vez ele enfrentou uns dez no alto da escadaria, de costas pros degraus, bem na beiradinha, o corpo teso, a cabeça erguida, se defendendo só com a régua na mão e o olhar. Depois disso, começaram a respeitar mais. Nunca nenhum menino ficou amigo dele, e ele só entrava nos grupos das meninas. Foi Margarida, Margô até o fim, mesmo depois quando tirou o colar do pescoço e ficou meio igual a todo mundo, apesar de nunca ter tido uma namorada que a gente tivesse visto.

Contei essa história prá minha irmã, quando ela me disse que trabalhava com ele no centro espírita, que era o melhor médium de lá, que tinha uma energia especial nos olhos, que vinha gente do Brasil inteiro tratar com ele, que tinha casado muito bem, que tinha dois filhos lindos e educadíssimos, que era advogado, que cozinhava divinamente, que estava muito bem de vida, que tinha ficado super-contente de saber que ela era minha irmã, que queria me ver da próxima vez que eu fosse na casa dela e que o menino mais velho dele tava sofrendo muito mas muito mesmo por causa desse negócio de bullying, coitado.

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