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A morte dos imortais

Nossos imortais estão morrendo à razão de um por semana. Nos últimos 25 dias, foram-se o poeta Ivan Junqueira, o buda ditoso João Ubaldo e o encantado Ariano Suassuna. Isso nunca aconteceu antes. Depois da Copa, o mundo perdeu o respeito pelo Brasil. Qualquer um – inclusive a morte e o ministro de Israel – acha que pode nos enfiar reveses e desaforos à vontade.

O pior é que na Academia Brasileira de Letras a média atual de idade (excetuando três moços abaixo dos 70) é de 80 anos. Existem quatro imortais com mais de 90, e um centenário: o advogado Evaristo de Moraes Filho. Está fácil para a morte fazer mais quatro ou cinco gols, igualando e até superando a marca alemã.

Forçada por essas nefastas circunstâncias, a ABL terá que renovar o time. Tenho pouquíssimas expectativas quanto a isso. Como a Seleção, ela só vai repor jogadores, sem alterar os critérios de escalação e sem mexer na forma de jogar. Continuará a ser um convescote de octogenários ligados ao poder, mas que pouco – ou nada – tem a ver com literatura de verdade. As exceções existem, e apenas confirmam a regra.

Não me refiro somente a Sarney e FHC, exemplos notórios dessa aberração, nem a Nelson Pereira dos Santos e Ivo Pitanguy – grandes em suas áreas, mas sem nada que os autorize a sentar nas cadeiras de Castro Alves e Euclides da Cunha. Também me repugnam as escolhas de não-escritores completamente desconhecidos. Como o professor de filosofia Tarcísio Padilha, membro da Escola Superior de Guerra e filho de político, que ocupa a cadeira de Álvares de Azevedo e Guimarães Rosa. Ou a professora de literatura Cleonice, que senta no lugar de Cláudio Manuel da Costa. Ou então um comentarista de rádio e TV, escolhido para a cadeira de Cassiano Ricardo apenas porque escreveu dois livretos de (má) reportagem contra… o PT!

Tem muita mosca na sopa de letrinhas brasileira. O próprio presidente da ABL – o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti – é um ilustre desconhecido. Escreveu exata meia dúzia de livros e traduziu outro tanto, mas duvido que sua obra justifique a ocupação do assento de Martins Pena e Artur Azevedo. Criticar um imortal sem tê-lo lido pode ser um pecado mortal. Talvez eu esteja errado, talvez Geraldo seja um beletrista de boa cepa. Ok, vou ler “O Mandiocal de Verdes Mãos” e, se for o caso, me penitencio.

Em vez de um chá de anciãos, a Academia poderia ser um polo de discussão e promoção das letras brasileiras. Segundo o professor Antonio Cândido, a literatura é fundamental para a humanização, esse “processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.”

Aos 96 anos (completados esta semana), Cândido não é acadêmico. Ainda bem. Não corre o risco de alimentar o índice de mortalidade dos efêmeros imortais da ABL – mais preocupados com seus jogos de poder e vaidade do que em distribuir quotas de humanidade à população.

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