Solidão

NATAL – foto: SelvaSP

Nunca fui muito adepto de datas festivas ou comemorativas. Sou imune a dia dos pais, das mães, da criança, dos namorados. Se depender do meu bolso pra faturar algum nesses dias, o comércio morre de fome. Atualmente, nem a folia do carnaval me contagia mais. Mas então é Natal, e aí meu coração balança.

Tem coisas natalinas que não agüento mais, como o eterno show de Roberto Carlos, ou o vozeirão da Simone entoando a versão brasileira de “Happy Christmas (War is Over)” de John Lennon. Outras coisas não me agradam, mas tolero. Olho de soslaio os cartõezinhos do entregador de jornal e do coletor de lixo, mergulhado no dilema de dar ou não esmolas. Sempre acabo soltando uns trocados, afinal – justifico – não é esmola, e sim uma gratificação de Natal.

Também não gosto do consumismo, nem da felicidade obrigatória que o espírito natalino impõe. Simpatizo com aqueles que odeiam o Natal e sofrem nessa data, incapazes de se contaminar com a alegria esfuziante dos filhos de papai Noel. Não é fácil. Já passei natais solitários, e não recomendo a ninguém. O bombardeio de amor, risos, abraços, bondades, generosidades e solidariedades entre os homens é de matar. Talvez esse seja o único dia do ano em que, para sobreviver, é melhor estar mal acompanhado do que só.

Na infância dos nossos bisavós, não era bem assim. Celebrava-se o nascimento do deus menino com fervor religioso, indo `a missa, adorando o presépio e praticando o amor que o Nazareno pregou. Evidentemente, tudo com um toque humano. Num dos seus melhores contos – Missa do Galo – Machado de Assis narra a cena de um rapazote de 17 anos que, enquanto aguarda a hora da missa, numa casa adormecida, vê-se envolvido numa situação deliciosamente erótica com uma mulher de 30, casada e meio beata. Como sempre em Machado, a ironia é fina, as coisas são e não são, e no final não acontece nada.

No poema “O que fizeram do Natal”, Drummond também descreve as mudanças no comportamento natalino: “As beatas ajoelharam / e adoraram o deus nuzinho / mas as filhas das beatas / e os namorados das filhas / foram dançar black-bottom / nos clubes sem presépio”.

Mas como eu dizia, diante do Natal meu coração balança como um sino de Belém. Quando nasci, fazia tempo que a Coca-Cola tinha vestido com suas cores o velho papai Noel, e o vil metal subjugara os sentimentos nobres. `A medida em que a data se aproxima, porém, surgem-me lembranças da infância e adolescência, numa mistura de sons, luzes, cheiros e acontecimentos. Como o primeiro cachorro-quente, embalado por “Jingle Bells” e saboreado nas Lojas Americanas, quando ainda não eram apenas Americanas. Ou brincar com o brinquedo novo, no dia seguinte (só se ganhava brinquedo no aniversário e no Natal, e olhe lá). Dançar coladinho com as primas, depois da ceia. O primeiro beijo de língua, aplicado por uma prima mais velha e experiente. Esses foram alguns dos maiores milagres que Natal que testemunhei.

Atualmente, fujo dos shoppings apinhados de gente ensacolada, dos bares e restaurantes infestados de confraternizações de empresas. Mudo de canal quando a ceia natalina invade minha novela preferida. Mas gosto de passear `a noite pelas ruas enfeitadas, vendo as luzes coloridas e deixando os sons me avivarem a memória. Momentaneamente, sou invadido por fiapos de um antigo espírito. Não olho para os adultos. Observo as crianças. Reconheço em seus olhos e sorrisos o mesmo encantamento que já vivi e – por mais que me esforce – não sinto mais.

1 responder
  1. lucinha
    lucinha says:

    Adorei essa cronica Berga, vc me fez voltar para Ibiporanga, vilinha onde nasci, e lembrar como era nossas noites de Natal…eram bem mais românticas e alegres..
    O máximo foi quando descobri que meu pai tinha dado carona para o Papai Noel no caminhão dele…..nossa espalhei para a Vila toda que o trenó do bom velhinho tinha quebrado no ‘mata-burro’ do Madeo Cola e meu pai ajudou ele entregar os presentes da criançada com seu Volvo laranja, por isso que o caminhão estava cheio de papéis de presente…..essa foi a explicação do meu pai quando entrei na cabine do caminhão…..Não é o máximo? Bjos

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