MAPA URUGUAI

Nem Cuba nem Miami

Definitivamente, sou um egoísta incorrigível. Achei que os anos tinham me curado dessa doença infantil da alma, mas qual!, sempre que meu bem estar é ameaçado, ela ataca impiedosamente. Peguei-me novamente enfermo ao ver o festival de intolerância que assola o país. E se der merda?, pensei. E se os extremistas – de direita ou esquerda, tanto faz – acabarem levando a melhor nessa onda de ódio onde ninguém ouve ninguém? O que fazer se a nossa pobre, feia, suja e malvada democracia for pro beleléu? Ora, pra quê se preocupar, respondeu meu ego já febril, você não vai mudar as coisas, deixe que esse povinho se exfloda, se a ala dita dura endurecer vá morar no Uruguai.

Ah, o Uruguai!, suspirei entregando-me ao surto egoístico. Berço de Gardel, do tango, do doce de leite e do churrasco. País onde as quatro estações comparecem todo ano, derrubando as folhas no outono, florescendo na primavera, congelando a água no inverno e torrando nos verões de 40 graus com sol até as 22 horas. Perambular pelas ramblas do Rio de la Plata, curtir o magnífico por do sol nas águas do Rio de la Plata, pescar aos domingos no Rio de la Plata, sentir a brisa do Rio de la Plata com seu perfume de mate e murmúrio de milonga longinqua.

Uruguai, terra do futebol, o primeiro campeão do mundo – em cima da Argentina. Lá, a palavra maracanazo significa vitória e glória, não derrota e infâmia. Lá, nostalgia é uma coisa bacana, não cafonice. Lá, exibir a última novidade de consumo desperta pena, não admiração. Lá, os jovens gostam dos velhos e os velhos gostam dos jovens. Lá não tem subidas, o país é inteirinho plano. As baladas começam às 2 da madrugada. E o carnaval dura 40 dias.

O Uruguai já aprovou o aborto e o casamento gay. A maconha é livre e o tabaco é quase ilegal, se não for proibido de vez agora que o oncologista Tabaré Vasquez reassumiu a presidência. A comissão da verdade é de verdade – e de justiça. Uma frente de centro-esquerda, liderada por uma mulher (Mónica Xavier), governa o país há 10 anos e ficará pelo menos 15 anos no poder. Sem se corromper, sem fazer alianças com corruptos e sem cair no populismo. O uruguaio não gosta de ostentação nem de estrelismos. É uma gente discreta e sossegada. “Bajo perfil”, como eles dizem. Ou “low profile”, como dizem os ingleses e americanos.

O povo uruguaio chegou ao cúmulo de transformar a crítica político-social em expressão artística. Ele se manifesta nas ruas, cantando e dançando ao som do coro-teatro das murgas e do batuque do candombe, em vez de vociferar sozinho no feicibuque ou xingar e bater panelas – como fazem seus selvagens vizinhos argentinos e brasileiros. O Uruguai produziu, enfim, José Mujica, a sua mais completa tradução.

Todas essas coisas me passavam pela cabeça, invadida pela cruel doença. Ah, o Uruguai!; gemia eu, delirando de egoísmo. Depois, aos poucos, a febre foi cedendo. Lembrei dos pobres infectados que foram para Miami e vivem presos em condomínios fechados, vivendo à base de relógios e iphones, sem conseguir se desgrudar do Brasil. Já pensou, chegar no Uruguai e ficar estocando doce de leite pra trazer pro Brasil? Melhor segurar as pontas um pouco mais. Verás que um filho teu não foge à luta, assobiei. Afinal, pode ser que a dita dura seja uma dita branda. Também pode ser que tudo acabe em pizza. Ou não, cutucou-me o egoísmo.

1 responder
  1. antono carlos
    antono carlos says:

    Maravilha de crônica. Enfim, a dita dura se encaixa no velho ditado adaptado: “Os cães ladram e os puxadores da caravana relincham”

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