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Novembro negro

Responda rápido: o que Carlos Gomes, Mario de Andrade e o Aleijadinho tinham em comum? E Chiquinha Gonzaga, Castro Alves e Gonçalves Dias? Se respondeu “arte”, você acertou em parte. Além da arte, o que eles tinham em comum era o sangue negro.

E todos sofreram um processo de embranquecimento, seja pela omissão da raiz africana em suas biografias ou pelas tintas brancas com que sempre foram pintados. Numa minissérie de TV, por exemplo, Chiquinha Gonzaga foi interpretada por Regina Duarte, e Carlos Gomes por Paulo Betti. Há vários outros casos. Nilo Peçanha, quando assumiu a presidência do Brasil, teve seus retratos retocados para parecer mais branco. Machado de Assis aparece mulato em algumas fotos, e em outras, branquinho branquinho.

Penso nesse tema – a negritude oculta de grandes brasileiros – ao ver que a Ordem dos Advogados do Brasil concedeu a Luiz Gama o título de advogado, 133 anos depois da sua morte. Gama era filho de um rico fidalgo português e de Luisa Mahin, negra muçulmana livre, altiva, bonita e alfabetizada, que planejou várias insurreições de escravos e liderou a Revolta dos Malês na Bahia. Luiz Gama nasceu livre, mas aos 10 anos o pai vendeu-o ilegalmente como escravo, para pagar dívidas de jogo e bebida. O menino foi levado para uma fazenda em São Paulo, onde permaneceu cativo e analfabeto até os 17 anos. Depois que aprendeu a ler e a escrever, fugiu para a capital e tentou cursar a faculdade de direito do Largo São Francisco – mas foi barrado por ser negro. Profundamente influenciado pela mãe, Gama não desistiu: frequentou o curso como ouvinte, tornou-se um rábula temido até por juristas, e dedicou sua vida à defesa de escravos, pobres, imigrantes e outros infelizes. É dele a tese de que um escravo, ao matar seu senhor – em qualquer circunstância – age sempre em legítima defesa. Gama foi também jornalista e poeta, e conseguiu ingressar nos círculos intelectuais, artísticos e políticos de sua época, sempre batalhando pela abolição e pela república. Não chegou a ver nem uma nem outra, porque morreu seis anos antes. Seu enterro, com 3 mil pessoas, foi um dos mais populares e comoventes da história de São Paulo – então com 40 mil habitantes.

O gesto da OAB joga um pouco de luz sobre grandes brasileiros ocultos pela negritude. Mas ainda há muitos outros. Teodoro Sampaio, por exemplo, até hoje não é reconhecido como um dos fundadores da Escola Politécnica da USP. A placa inaugural e o site da Poli omitem seu nome, apesar de Sampaio ser um dos autores da proposta de criação da escola. Era filho de uma escrava negra e de um padre branco. Com seu trabalho, comprou a alforria da mãe e dos dois irmãos. Foi engenheiro, geólogo, historiador, geógrafo, cartógrafo e urbanista. Ajudou Euclides da Cunha a escrever a primeira parte d’Os Sertões, fundou institutos históricos e geográficos, saneou e urbanizou cidades, modernizou portos, explorou rios e serras. É considerado o pai da geologia brasileira. Morreu com 82 anos, dando aulas gratuitas para jovens pobres.

Pois bem, não bastassem essas injustiças, surge agora um movimento para transformar novembro num mês azul, de combate ao câncer de próstata. Ora, que se encontre outro mês para isso! Novembro é um mês negro, de combate ao racismo, esse outro câncer que mata negros anônimos, embranquece negros famosos, contamina nossa alma e corrói nossa sociedade.

Também há vitórias e avanços a serem comemorados em novembro, frutos das políticas públicas e dos movimentos sociais. Segundo a revista Exame, recentemente o Sebrae descobriu que os negros já são a maior parte dos empreendedores brasileiros. Em breve, muitos serão empresários de médio e grande portes, e cada vez mais ocuparão posições profissionais elevadas. Os exemplos dos antepassados mostram que negros brilham por seus próprios méritos, não pelo nome do pai ou pela claridade da pele. Pense nisso antes de ofender um deles. Amanhã ele poderá ser seu chefe. Ou seu patrão.

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