Caoreveillon

Novo ano, velhos fantasmas

Achei que este seria o último réveillon da minha cardíaca e ofegante paulistinha de 14 anos. De uns seis meses para cá, a saúde dela piorou muito, e este seria o primeiro foguetório que enfrentaria fragilizada – e sozinha, pois eu e minha mulher ganhamos uma ceia num hotel e só voltaríamos para casa no dia seguinte. Temos outra cachorra, de 3 anos, mas de pouca valia: também é medrosa e uiva desesperadamente quando fica sozinha. Saímos de casa com os corações apertados.

Aperto parece uma boa palavra para definir 2013. Ficou uma sensação de que foi um ano de dificuldades, como se grandes tragédias tivessem acontecido. Mas olhando friamente, 2013 foi bastante igual a 2012, 2011, 2010. Desemprego? Normal. Inflação? Ainda normal. Tsunamis? Nem cheiro. Incêndio teve o da boate Kiss, mas foi no longínquo começo do ano. Até que não foi um ano ruim e teve muita coisa inédita. Teve a eleição de um papa argentino, as passeatas de junho que chacoalharam o país, e outras coisas que você já viu nas retrospectivas.

Apesar disso, a sensação geral é de aperto no coração. Como se tivéssemos passado o ano preparados para uma ameaça terrível que subitamente virou pó – como a cocaína dos Perrella. Que ameaça era essa? Ora, a mesma que retornaráem 2014: a idéia de que o país está falido, que estamos em crise, que nada funciona, nada vai dar certo. E nada percebemos porque viveríamos sob um manto de mentiras. Essa bolha de ilusão, grita diariamente a grande imprensa, vai estourar a qualquer momento, revelando o mundo dantesco onde estaríamos mergulhados.

Mergulhados na magnífica ceia do hotel, eu e minha mulher olhávamos – os rostos felizes, os abraços calorosos, os brindes espumantes –  e sinceramente não víamos crise alguma. Ao regabofe seguiu-se um baile animadíssimo. Dançamos e pulamos como nunca, queimando as calorias da orgia gastronômica. Dormimos  saciados, embalados pelo doce espoucar dos fogos que festejavam nossa felicidade.

No dia seguinte, no café da manhã, minha mulher disse que estava com medo de chegar em casa e encontrar nossa velha amiga durinha no chão. Se for só isso, eu disse, tudo bem (tenho o vício de usar o humor negro para enfrentar o medo). O pior – emendei –  é se, ao ver a paulistinha morta, a mais nova começou a uivar, não deixou os vizinhos dormirem, e tiveram que chamar os bombeiros prá arrombar a porta e salvar a pobre – abandonada pelos donos cruéis em pleno bombardeio aéreo de réveillon. Pura invenção, mas plausível. E possível.

Voltamos voando prá casa. A culpa gigantesca, o coração miudinho. Nenhum sinal de bombeiros. Subimos, abrimos a porta. Duas línguas alegres nos receberam. Nenhuma ocorrência grave. Só alguns xixis debaixo da mesa. Fiquei pensando como a anunciada tragédia nacional – e nossa crença nela – se parece com esse episódio, ou seja, o medo de suposições. Não sei como espantar os fantasmas que povoam as mentes dos brasileiros. Mas no próximo réveillon, vou tacar dramin nas cachorras. Algo me diz que a paulistinha ainda tem muitos anos novos pela frente. E eu quero curti-los sem medos de fantasmas.

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