Escritor imaginario

O escritor imaginário

O escritor imaginário imagina que é escritor. É uma síndrome comum, que geralmente acomete as vítimas na adolescência e perdura pela vida afora conforme a gravidade de cada caso. A maioria consegue curar-se quando o mundo começa a impor responsabilidades, como trabalhar, casar, pagar o apartamento e o carro usado, mas a verdade é que ninguém, uma vez atingido pela enfermidade, se recupera plenamente.

Existe escritor imaginário que imagina escrever poesias, contos, romances inclusive. Às vezes, consegue até publicá-las. Quando isso acontece, e muita gente ama ou odeia, mas todos devoram a obra fresca no mercado, estamos diante do escritor imaginário de sucesso real, o chamado sucesso de público. Como um bruxo, ele não apenas imaginou-se escritor, mas fez milhões de pessoas imaginarem a mesma coisa. Paulo Coelho é o mais bem sucedido caso desse tipo. Nunca antes na história deste País alguém conseguiu, como ele, vender tanto a tantos, durante tanto tempo. Particularmente, não acho isso ruim, e duvido que haja brasileiro que não se envaideça um tiquinho, mesmo cuspindo de lado, em ser compatriota de Dom Paulete, nosso mago imortal, definitivo e muito bem biografado.

Outro escritor imaginário imagina que ser escritor é publicar livros. Paga do próprio bolso pequenas edições (que só os amigos compram), na noite de autógrafos (paga do próprio bolso) capricha nas dedicatórias, e tempos depois fica chocado ao ver sua obra jogada no canto de um sebo, na pilha do 1,99, com dedicatória, manchas secas de champanhe e tudo. Com o bom senso enfraquecido pela síndrome, ele imagina que publicar um livro é elevar-se acima dos mortais, é tornar-se um messias, um herói, alguém capaz de transformar em beleza o horror da vida, de revelar os mistérios do mundo, de enxergar com um só olhar todo o universo.

Há, de fato, escritores que conseguem essas proezas. São os casos mais graves e incuráveis da síndrome. Sua doença consiste em ganhar – ou perder – a vida escrevendo. Escrevem relatórios, projetos, monografias, contratos, matérias de jornais, campanhas, anúncios, cartões de natal, às vezes até obras em nome de outros. E na calada da noite, ou ao raiar do dia, ou sempre que estão sozinhos – a louça lavada e o computador finalmente sem ninguém –  escrevem o que eles imaginam que um verdadeiro escritor escreve. Escrevem contos, versos, peças, novelas. Poucos chegam ao heroísmo de um bom romance, é verdade, mas muitos estão se dando razoavelmente bem usando a internet como escrivaninha. Vários deles – alguns entrados nos cinquenta – nunca publicaram um livro sequer, mas continuam imaginando que são escritores, continuam escrevendo e sofrendo e arfando em busca do aleph de todos os significados, que surge na noite e desaparece no dia, presente e inalcançável como os amores do passado; aquela palavra, frase ou verso capaz de – como dizia um escritor inglês – dar uma sensação do que há na vida de complexo, terrível, resplandecente e nebuloso.

Dia desses, descobri mais um tipo de escritor imaginário: o cronista. Isso mesmo. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues? Todos escritores imaginários que imaginávamos escritores. Ao contrário do que pensavam esses doentes, crônica não é literatura. Se fosse, estaria entre os gêneros do concurso literário anual da Fundação Biblioteca Nacional, instituído pelo Ministério da Cultura, que premia com R$ 30 mil – R$ 21.000 sem impostos – obras e autores pela sua qualidade literária, originalidade e contribuição à cultura do país. Ela, justamente ela, o produto brasileiro mais apreciado no exterior depois do futebol, dos travecos e dos corruptos endinheirados, está fora do rol do Minc. Pelo que se vê no edital, a crônica não preenche os requisitos de uma boa literatura, não traz nenhuma contribuição à geléia geral da nossa cultura, como faz e deve fazer a literatura de verdade, seja de que gênero for. Para os sagazes governantes culturais, a crônica – assim como teatro e biografias, também excluídos do negócio – não é de verdade. É apenas uma literatura imaginária, feita por escritores imaginários, revisada e publicada por editores imaginários, e lida por você, meu atento e imaginário leitor.

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