Amantes sol

O futuro do pretérito

Houve um tempo em que todo mês eu tinha um casamento, um batizado ou um aniversário na agenda. Aos sábados, costumava ir pra cama com restos de músicas e risadas no ouvido. Conhecia todos os buffets infantis da cidade, sabia quais eram os brinquedos da moda e o seu preço. Escrevia cartões de felicidades. Agora, frequento cemitérios e missas de sétimo dia. Durmo ao som de soluços e lamentos, muitas vezes produzidos por mim. Escrevo obituários. Conheço todos os velórios, sei quais são os últimos modelos de caixões e de coroas de flores. E o seu preço.

Houve um tempo em que o circo chegava à cidade, a quermesse se instalava na praça – a praça era do povo – e os mais corajosos andavam sobre fogueiras no mês de junho. Doença infantil era caxumba, ser criança era pular corda, amarelinha, jogar queimada e rico-trico. As mães viviam chamando os filhos pra dentro de casa. Hoje o circo foi para os palcos, quermesse é uma coisa desconhecida, povo é algo indefinível. As praças são escuras e vazias. Doença infantil é obesidade, e as mães imploram a seus filhos que saiam de casa.

Houve um tempo em que esperava ansioso o próximo livro do José Mauro de Vasconcelos e do Jorge Amado. O novo disco do Led Zeppelin, do Piazzola, do Chico. O show da Elis, do Gil, do Caetano. Não perdia um lançamento de filme do Glauber, do Kubrick, do Kurosawa, do Mel Brooks, do Sergio Leone. Atualmente, poucas novidades me atraem. Surgem novos conjuntos, mas nenhum com o impacto do Secos & Molhados. Aparecem novos escritores, mas nenhum com a força de Cortázar. Sem ansiedade, vagueio pelas livrarias em busca de biografias e velhos cronistas. Ouço coletâneas de músicas e só assisto filmes pela internet.

Houve, enfim, um tempo em que mudaríamos o mundo e o futuro seria melhor. Amanhã vai ser outro dia, acreditávamos. No futuro existiria paz e amor. Os homens seriam mais solidários e menos preconceituosos. Eu seria famoso, excelente pai, amigo e esposo. Com sorte, bom amante também. Agora, melhor parece ser o passado, onde ricos e pobres se misturavam mais. Transgressão era homem cabeludo e mulher de calça comprida. Só tínhamos medo de manga com leite e doença venérea no ônibus. O preço da cebola? Não andava pela hora da morte. As pessoas eram mais educadas e menos agressivas. Até mais românticas. Sobretudo, havia a esperança do futuro. E das amantes.

Naquele tempo, em dia de eleição, saíamos caminhando pelas ruas, agitando bandeiras, distribuindo panfletos. Muitos faziam boca de urna. Adversários se agrupavam nas esquinas, atiçavam-se mutuamente cantando músicas e gritando slogans. A vitória era celebrada com carreatas, buzinaços e comícios. Atualmente, dia de eleição é um domingo vazio. Panfletagem só nos muros do Facebook. Aglomeração, só para pegar o frango na padaria. Nas ruas, carros sem bandeiras, sem adesivos, sem bandeirolas. Nenhuma buzina. Nenhum jingle. Nenhum grito. Nenhum cabo eleitoral. Apenas cavaletes esfarrapados pelo vento seco. Nesses dias, o coração me olha, interrogativo. Continue batendo, respondo.

2 respostas
  1. Jhony
    Jhony says:

    Que belo texto, linguagem simples e cheio de impacto, nos faz rir e também assusta, pois não é nada além da verdade de hoje.

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  2. Gloria Velasco
    Gloria Velasco says:

    Lendo a crônica eu choraria se não tivesse rido.
    Nenhuma conjugação verbal é tão oximoro como essa do futuro do pretérito.

    Consultemos nossos corações: seria o futuro distopia…
    Um abraço
    Gloria

    Responder

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