Praia moleque

O grande risco

Embora seja uma informação de absoluto desinteresse público, devo dizer que tive umas férias excelentes. Fazia décadas que não visitava o Nordeste. Fiquei surpreso com a pujança de Pernambuco e ressabiado com o desenvolvimento do turismo, que não extinguiu hábitos tradicionais, como a pesca de arrastão em jangadas, mas bloqueou o livre acesso às melhores praias, agora ocupadas por pousadas e restaurantes. Para chegar à água salgada, é preciso cruzar guaritas com seguranças e pagar taxas de estacionamento mais salgadas ainda. Se você está pensando em visitar aquela região, apresse-se. Locais lindos e desimpedidos, como a pequena praia de Antunes, ou a simpática Japaratinga – uma vila de pescadores em Alagoas -, em breve também serão ocupados.

As jangadas e os arrastões trazem antigas lembranças visuais e musicais. Trazem também pouquíssimos e minúsculos peixes em suas redes, mostrando que a crise atingiu o fundo do mar. Hoje em dia, bichos grandes como ciobas, espadas e cavalas, só na ponta do arpão. Mas em pequenos restaurantes a lagosta ainda é farta e barata, cerca de R$ 70 uma generosa porção para três pessoas. Todos os preços são negociáveis: um passeio de R$ 80 sai por R$ 50, uma diária de hotel encolhe 30% num piscar de olhos, e se a sua gula não atrapalhar a negociação, um saquinho de cocada com abacaxi pode despencar até 40%.

O nordestino continua falante, criativo, alegre, hospitaleiro. Quase despreocupado, eu diria, como um peixinho colorido nadando entre corais, ou um moleque brincando na água cristalina e morna, ou uma estrela cintilando na noite sobre o mar. É verdade que as capitais ficaram tão violentas quanto suas irmãs do Sul. Muitas casas e lojas tem grades nas portas e janelas, um pivete arrancou a correntinha de ouro da minha mulher, e vi duas brigas de rua em menos de dez dias. Mas a agressividade ainda não desumanizou as relações, nem destruiu o espírito de solidariedade. Um ciclista caído ao chão, mesmo sendo pobre e bêbado, não deixa de ser socorrido pelos passantes.

Juro que minha intenção, hoje, era falar apenas das férias; mas gozado, percebo agora que essas coisas do Nordeste retratam o momento atual do Brasil. Sim, porque continuamos sendo uma gente alegre e quase despreocupada, porém marchamos firme para a violência entre dois lados radicalizados. Existem aqueles que não estão em nenhum dos lados – talvez a posição mais difícil nesta hora. São os que conseguem enxergar a complexidade da situação, porém ninguém os escuta, e sofrem pressões imensas para aderirem a um lado ou outro. Também há os que são favoráveis a ambos os lados, como o vendedor de amendoim que numa manifestação veste a camisa da CBF, e na outra, uma camiseta vermelha. E tem os que sempre foram deixados de lado, os miseráveis que nenhum programa social conseguiu resgatar, como a menina das balas no semáforo da esquina.

Por falar em balas, logo, logo teremos o confronto físico entre os dois lados, possivelmente com alguma morte, o que incendiará ainda mais os ânimos. Escrevo na quarta-feira, talvez no domingo isso já tenha ocorrido. Só espero que, como no Nordeste, o aumento da violência não desumanize as relações. Espero que o retrocesso democrático – o grande risco que corremos nisso tudo – não se instaure de vez. Espero que essas esperanças não sejam apenas ingenuidade ou algum resquício cristão de minha parte. Por falar em cristão, e antes que me esqueça: feliz páscoa pra todos os lados.

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