futebol roça

O não dito

Gostaria de poder dizer que o momento de um povo, de um país, determina seu desempenho no esporte. Exemplos não me faltam. A Espanha com sua crise econômica e social, com sua monarquia desmoronando sob uma avalanche de corrupção e imoralidades, seria a responsável pelo mais humilhante fracasso já imposto a uma seleção campeã do mundo. Os outrora titãs da Fúria cambaleiam pelos gramados sob uma saraivada de golpes, indefesos e grotescos como gladiadores cegos, trôpegos como sansões de cabelos cortados.

O Uruguai, ao contrário, orgulhoso de ter o melhor presidente do planeta, de ser o país mais avançado em políticas anti-drogas, de produzir o doce-de-leite mais saboroso do mundo, não se deixa abater por tropeções e avança heroicamente rumo ao tricampeonato. Se conseguir, a Celeste atingirá o céu e fará renascer das cinzas um dos maiores símbolos da identidade uruguaia: o futebol. Então, nada será capaz de abalar sua auto-estima. Nem mesmo o confisco – pelas autoridades sanitárias brasileiras – do carregamento de doces-de-leite que compunha a dieta de guerra dos jogadores. E que eles parecem ter substituído por alfajores. Com chá inglês.

Gostaria de poder dizer que Portugal se modernizou um pouco, mas não superou aquela melancolia histórica e sonhadora. Continua sebastianista, acreditando que um deus grego irá salvar a pátria. Mas o deus grego – como todo deus grego – é vaidoso e irritável. Olha mais pra sua imagem nos telões do que para a deusa da partida – a bola. À menor contrariedade, arranca a coroa da cabeça e a lança ao solo. Assim como D. Sebastião nunca apareceu para o jogo, nem deu satisfações à sua esperançosa torcida, o deus grego não descerá do Olimpo para jogar entre os mortais.

Gostaria de dizer tudo isso, se a atuação dos times dependesse de seus países. Se essa relação existisse de fato, eu poderia dizer que a falta de rumo, de ritmo e de entrosamento da seleção brasileira é reflexo da falta de rumo, de ritmo e de entrosamento que afeta nosso país. Acreditamos (ainda) que um craque salvador irá conduzir-nos à vitória. Ficamos imóveis em posições que julgamos avançadas, reclamando que a bola não chega aos nossos pés. Temos a força, a alegria e a ousadia dos jovens, mas não sabemos o que fazer com isso. Manifestamo-nos em campo como nos manifestamos nas ruas: criativos, vigorosos e ameaçadores, mas sem objetividade, sem sincronia, dependendo de improvisos e de arroubos individuais. Ficamos atordoados e confusos sempre que um obstáculo nos surge à frente. Nossos líderes e dirigentes não tem a menor idéia do que fazer. Estão velhos e enferrujados, presos a antigas fórmulas de sucesso, comprometidos com a continuidade e com medo da mudança.

Mas não posso dizer nada disso, pois como diria um jurista, não há nexo causal entre o sucesso de um time e o sucesso de um povo. Espanha e Portugal já caíram, com ou sem crise européia. O Uruguai poderá conquistar sua terceira estrela ou amargar mais uma volta prá casa – mesmo que essa casa seja uma das mais admiráveis do mundo. E o Brasil poderá chegar ao hexa, independentemente da falta de rumo e do festival de besteiras que assola o país. O que será maravilhoso, convenhamos. Portanto, fica o dito pelo não dito. E vamos nessa.

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