honestidade

O signo da honestidade

Estou fazendo um programa de auto-desenvolvimento que recomenda, entre outros itens, a prática da honestidade. Falo sério, não é ironia. E honestamente, também não é fácil. Se eu vivesse na Finlândia ou na Suíça, onde ninguém vigia bancas de jornais, acho que seria mais tranquilo. Mas aqui, na terra do jeitinho e da lei de Gérson, a experiência é dolorosa.

A falta de honestidade não é a única cicatriz da minha face mr.Hyde. Segundo os astrólogos, por ter nascido sagitário, sou geneticamente fútil, esnobe, presunçoso, grosso, desbocado, insensível, controlador, extremista e irresponsável. De nada adiantou a natureza ter me dado a benção de ser também um cara expansivo, espontâneo, generoso, justo, otimista, alegre, idealista, sincero, aventureiro e motivador. O lado negro da minha força, com seu excesso de auto-confiança, desmorona tudo isso numa tacada sem escrúpulos. Ou seja, eu me acho “o cara”, gosto de jogar e adoro um golpe baixo. Portanto, leitor, tome cuidado. Todo esse blá-blá-blá – o exercício da honestidade me obriga a dizê-lo – pode ser uma engenhosa armação para conquistar sua simpatia e reforçar aquilo que mais gosto do meu lado “bom”: ser adorado por todos.

Após meses de esforços honestos, com várias melhorias e recaídas, já consigo devolver troco a maior, respeito filas, não me aproprio de idéias alheias, e reduzi drasticamente o número de mentiras, mentirinhas e mentironas. Às vezes me arrependo e a vontade de matar bate forte, como outro dia, no mercado municipal. Por falha da balança, a vendedora cobrou a menos um punhado de 100 gramas de goji berry – frutinha tibetana da moda, que ela vendia a preço de ouro: R$ 170 o quilo. Apontei-lhe o erro a meu favor, paguei o valor correto e marchei em frente, sorrisão na cara, embriagado de honesta felicidade. Logo descobri, porém, que do lado de fora do mercado a iguaria chinesa era vendida a R$ 90 o quilo. E a qualidade era superior. Fiquei mais vermelho que um goji. Tive que usar todo meu auto-controle para não cair de joelhos e estapear o rosto gritando “vai, dom Quixote do Jabaquara, quebrar a cara no Moinho Velho!”

O problema maior é que a honestidade não é uma questão de signo. Ela atinge todo o zodíaco, e é fácil identificar sua ausência nos outros. Principalmente naqueles que deveriam zelar por ela, como membros da imprensa, juízes, fiscais, conselheiros dos tribunais de contas (na Roma Antiga, o poeta Juvenal já indagava: “e quem vigia os vigias?”). Também é fácil justificar pequenos – e até grandes – deslizes, argumentando que “ninguém consegue ser 100% honesto”. O duro mesmo é resistir às tentações, às oportunidades. Não entrar em leva de saques durante greve da PM. O duro é ser um centauro certinho, enquanto peixes nadam em águas turvas; ser uma virgem cercada de escorpiões; um carneiro dócil numa manada de touros ferozes.

O duro é ficar firme mesmo se sentindo frouxo, otário, ingênuo, idiota. Felizmente, não compro goji berry todo dia. Mas falando francamente, o mais difícil não é ser honesto com os outros. É ser honesto comigo mesmo. Este é o mais elevado estado da arte. É o que separa os grandes dos pequenos. O que produz seres livres do medo de vigiar e punir. Sei que nunca chegarei lá, mas um dia, talvez, quem sabe, conseguirei chegar perto. Conseguirei usar meu arco e minhas flechas para o bem. Conseguirei escrever somente verdades. E não trapacear um centavo com o leão.

4 respostas
  1. Vitor
    Vitor says:

    Ser honesto consigo mesmo é O grande desafio. Tão difícil saber o que realmente queremos e aquilo que achamos que queremos mas no fundo não queríamos. A solução que encontro é me aceitar estranho e fazer o melhor que sou capaz. Como na letra dos Los Hermanos: “Faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz!”

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  2. Gloria Velasco
    Gloria Velasco says:

    Honestamente falando, apoio total ao seu auto desenvolvimento. Mas escrever só verdades já considero meio monástico. Como ficar sem a invenção na prosa… Invenção é mentira ou não o será….

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