Trem estacao

O trem

Quando os funcionários da estação e os primeiros passageiros do dia chegaram, o trem já estava ali. Era uma composição seminova, com boa pintura e vagões higienizados. A locomotiva, uma reluzente C30 vermelha, estava lubrificada e cheirando a óleo novo. Alguns passageiros subiram e se ajeitaram nos vagões, mas foram retirados pelos seguranças, que corriam de um lado para o outro falando em seus rádios. Uma multidão foi se avolumando, e surgiu extensa fila de trens parados nos trilhos, bloqueados pelo comboio vazio e silencioso estacionado na plataforma central.

Dois maquinistas abriram caminho na massa humana, subiram apressados à locomotiva e logo desceram, confusos e também falando agitadamente nos rádios. Os painéis de controle da cabine estavam vazios. Os relógios de medição não tinham ponteiros. Todos os comandos estavam desativados. Não havia ignição para ligar o motor e colocar em marcha as 172 toneladas da C30. E mesmo que houvesse – descobririam depois – a enorme máquina não se moveria: suas rodas motrizes estavam travadas.

Helicópteros começaram a sobrevoar a região. As programações matinais das rádios e TVs deram cobertura contínua, pautando o assunto como problema de trânsito, caos urbano e desorganização do transporte público. Esquadrões antibombas foram chamados e vasculharam todos os vagões. Bombeiros e ambulâncias ficaram de prontidão.

Políticos da oposição atacaram o governo, tachando-o de incompetente, incapaz de descobrir como um trem desconhecido surge na principal estação da cidade e ninguém consegue retirá-lo do local. O governo rebateu, assegurando que todas as providências estavam sendo tomadas, o problema estava sendo rigorosamente investigado e seria resolvido em breve.

No final da manhã, a estação continuava cercada por uma multidão, agora de curiosos querendo ver o trem clandestino que veio do nada e, solene na plataforma, parecia aguardar o embarque de passageiros e bagagens.

No início da tarde, as redes sociais não falavam de outro assunto. Alguns casais tiravam selfies diante dos vagões, outros tentavam prender cadeados no parachoque da locomotiva. Especialistas em transporte ferroviário e engenheiros mecânicos debatiam na mídia, lembrando acontecimentos parecidos e dando explicações técnicas para o problema. No final da tarde, os curiosos foram embora e chegaram caçadores de portas dimensionais e desvãos cósmicos. Também vieram observadores de ovnis, membros de seitas esotéricas, roqueiros idosos e pregadores do apocalipse.

O acontecimento dominou todos os telejornais noturnos, as conversas dos bares e as homilias nas igrejas. Em nota oficial no horário nobre, o governo declarou que havia suspeita de sabotagem, indícios da ação de extremistas interessados em causar distúrbios da ordem pública e atacar a democracia.

Um grupo sem teto aproveitou a escuridão e tentou ocupar o trem, mas foi impedido por policiais. Durante a madrugada, grafiteiros pixaram os muros da estação. Um deles conseguiu chegar à plataforma e pintar uma ave branca na locomotiva vermelha, antes que um PM chutasse o spray de suas mãos.

Na manhã seguinte, quando os funcionários da estação e os primeiros passageiros do dia chegaram, o trem não estava mais ali.

4 respostas
  1. Dinesi
    Dinesi says:

    Tratava-se do trem balla prometido pello !Des!governo…apareceu durante a campanha política e depois virou fumaça.

    Responder
  2. Jary Mércio
    Jary Mércio says:

    Genial, Bergantini! Um acontecimento insólito registrado da maneira mais concisa e distante possível. Kafkiano no teor e na linguagem, lembra também o modo desassombrado de narrar o absurdo utilizado por Patricia Highsmith de “Catástrofres Nem Tanto Naturais”, o que em nada impede essa sua notável peça de ser impede de ser original e única. Parabéns, mais uma vez e sempre, querido amigo!
    Seu fã.

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