ovo azul

Os ovos de João de Barros

Eu tinha uns catorze anos quando conheci João. Um dia, ele disse vai lá em casa prá gente papear e tomar café. Fui, num sábado à tarde. Casa pequena, pobre, com quintal grande e cheio de plantas. Morava com a mãe, o pai, um monte de irmãos, gatos, cachorros e galinhas. João foi lá dentro, voltou com um livro e sentamos no quintal, à sombra de uma mangueira. Você conhece Cecilia Meireles?, perguntou. Eu conhecia só de nome, mas respondi como se conhecesse a obra toda. Ele sorriu, fingindo que acreditava em minha falsa erudição, e com voz grave e macia, leu:

“houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Neste ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz”.

Eu era pouco mais que uma criança e fiquei maravilhado. Olhei para o céu e vi o pombo branco pousado no ar, nítido e solene, ao alcance da mão. Senti-me completamente feliz. Eu ainda não sabia, mas João era o pombo e eu era o ovo. Não um ovo de louça azul, mas um ovo comum, que começava a ser chocado naquele momento, no calor do deslumbramento poético.

Não fui o único ovo chocado por João. Muitos outros descobriram as maravilhas da arte por meio dele. Uma vez, ajeitou um quartinho no fundo da casa e passava as tardes ensinando desenho, pintura e artesanato para a molecada. Depois montou uma exposição com os melhores trabalhos, no centro cultural da cidade. Nenhuma das obras juvenis foi vendida, mas a experiência marcou em muitos a certeza de que eram artistas, e assim seguiram pela vida afora.

João virou funcionário da cultura, recuperava acervos de cantores caipiras esquecidos, guardava obras de pintores que morreram jovens e alucinados, vivia catando coisas bonitas que o mundo joga fora. Se fossem objetos, recolhia-os, consertava-os, cuidava deles como se fossem crianças abandonadas. Para ele tudo era arte: pedras, galhos, folhas, bichos, vento, água, palavras. Menos gente. Gente era divindade. E amigos eram sagrados.

No fim da vida, aposentado e quase cego, cuidava da mãe centenária, da cachorrinha idosa e de um jardim de cactos. Conversava com as plantas e com espíritos, cozinhava, escrevia, limpava a casa, ouvia música e tentava usar o computador. Montou um congá no quartinho do quintal, onde fazia orações e ajudava quem precisasse de remédio para o corpo e a alma.

Um dia, a mãe morreu. João tentou levar a vida sozinho, regar os cactos, pagar as contas, mas a mãe o chamava, insistente, sentada na velha poltrona da sala. Aí ele resolveu morrer também. Segundo a família e uma amiga que cuidou dele até o fim, João morreu no hospital, depois do almoço. Alguns vizinhos, entretanto, afirmam que nesse dia viram bater as asas e sumir no céu um pombo branco que amanhecera pousado num grande ovo de louça azul, em cima da casa. Outros dizem que não tinha ovo nenhum. O pombo, asseguram, estava pousado no ar, quase ao alcance da mão.

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